Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

O automóvel não é um objecto

O facto do automóvel ter uma forma mais ou menos fixa - cerca de cem anos depois da sua invenção, ainda é apenas um motor acoplado a quatro rodas - não deve confundir-nos quanto à sua natureza. O automóvel não é um objecto, ao contrário de um telemóvel, de um relógio ou de uns sapatos.

 

Os objectos ditos normais são-no apenas e só porque o seu território, o seu sentido, acaba geralmente no seu uso. Claro que há linguagens particulares a cada objecto que permitem leituras semiológicas diferentes mas normalmente usamos um relógio para sabermos as horas, um telemóvel para estarmos contactáveis e um par de sapatos para termos conforto ao andarmos a pé. Os objectos normais vão um pouco além do seu uso, é claro; posso julgar o indíviduo X de uma forma diferente por reparar que há uma espécie de padrão no seu telemóvel cheio de funções adicionais, nos seus sapatos de couro raro e no seu relógio de marca. Neste aspecto, o automóvel não é excepção à função primária dos objectos normais, que é estarem subjacentes a uma função.

 

O automóvel não é um objecto porque, algures no século XX, transformou-se num conceito, numa ideia que de tão poderosa absorveu as restantes. Foi assim que as nossas cidades passaram a ser desenhadas em função não das pessoas concretas que as habitam mas de uma forma particular de locomoção. O automóvel passou a ser uma ferramenta conceptual ao serviço do urbanismo.

 

Os rastos desta transformação estão em quase todas as cidades europeias: um centro histórico patusco, convidativo, próximo, com ruas estreitas e pedonáveis que contrasta com a progressiva granulação da malha urbana que fica fora desse núcleo: edifícios pontilhados  no território sem qualquer articulação com a envolvência, aparecimento de terras de ninguém, baldios, espaços monofuncionais. É o dito urban sprawl ou estilhaçamento urbano, em português.

 

Uma analogia talvez ilustre o que foi dito; é como se eu criasse uma casa em função não da escala dos seus futuros utentes mas em função de uma escala muito maior, uma escala gigantesca. Quando os utentes morassem na casa seriam liliputianos; ir à casa de banho seria como ir à mercearia; todos as divisões e objectos lhes pareceriam desfasados da sua realidade. A escala maior foi o que orientou a projecção da habitação e sacrificou a escala real aos caprichos conceptuais do projectista!

 

É paradoxal que os urbanistas e arquitectos de há vários anos tenham conseguido criar espaços mais acolhedores do que os seus sucessores. Normalmente espera-se que as ideias progridam. Não foi o caso do urbanismo. Por outro lado, os autores dos centros históricos não tinham em mente criar uma cidade para automóveis porque eles não existiam. Criavam-se arruamentos para pessoas, cavalos e juntas de bois. Agora só podemos remediar o sucedido. 

publicado por TMC às 18:45
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12 comentários:
De PJ a 4 de Setembro de 2009 às 21:02
muito bom post!

sem dúvida q ao olharmos para a malha urbana, apercebemo-nos disso. no caso do Porto, até meados do sec. passado era um conjunto de várias aldeias - por exemplo, o centro/ ribeira/ miragaia, cedofeita, massarelos, foz. Hoje em dia essas zonas verdadeiramente rurais -- capazes de surpreender mesmo muitos habitantes do Porto -- foram afogadas em malhas urbanas "modernas". Há um enorme contraste -- infeliz -- entre as zonas que foram construidas até aos anos 40/50 e aquilo que surgiu nos 70s, 80s e por aí fora. certamente houve vantagens, mas perdeu-se muito muito carácter.

quanto ao ponto de viragem q transformou o automóvel em mais qualquer coisa, suponho q tenha sido após o futurismo -- basta lermos o manifesto do movimento artístico para o perceber. as consequências dessa nova interpretação do automóvel acabaram no entanto por ser "corrompidas" ao longo dos 20/30 anos seguintes, onde os heróis e mártires dessas máquinas de sensações infernais passaram a ser o comum cidadão ocidental, rico, que começou a amolecer e a exigir conforto para decair no extremo comodismo, que é o que temos hoje em dia..

pode parecer paradoxal para alguém que detesta carros como eu, mas os carros e pilotos até aos anos 30 apaixonam-me!
mas esse tempo já acabou, já lá vão 80 anos..

cumprimentos!
De PJ a 4 de Setembro de 2009 às 22:10
já agora, fica uma nota:

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Death_and_Life_of_Great_American_Cities

sinceramente nunca li o livro, mas já li artigos nele inspirados. a ideia que fica é que os urbanistas estão 50 anos atrasados, e a este ritmo ficarão mais umas décadas ainda..

cumprimentos,
De Rogério Leite a 5 de Setembro de 2009 às 14:25
Seu post está excelente, muito bem posicionado. Interessante quando vemos fotos antigas de 80, 90 anos atrás, as ruas eram estreitas, havia poucos carros, as pessoas viviam de forma mais humana. Os "urbanistas" não eram tão científicos, e iam fazendo a coisa do jeito que lhes dava na idéia. Creio que se naquele tempo houvesse quem percebesse no que ia dar este rolo todo nunca teriam começado a expandir, duplicar, triplicar as ruas e avenidas. E com certeza teriam tentado freiar a expansão do automóvel. Mas como vc disse, só nos resta remediar o sucedido. É como casa em que o dono resolve por uma porta blindada e grades nas janelas DEPOIS de roubada!
De Dario Silva a 6 de Setembro de 2009 às 23:50
O automóvel é um desígnio nacional, é um desígnio e um imperativo de Bragança!

http://www.linhadotua.net/3w/index.php?option=com_content&task=view&id=516&Itemid=1
De João a 7 de Setembro de 2009 às 10:00
Liliputianos. È assim que nos sentimos na praça de Espanha, ou quando o carro não pega em Alfragide.
De Gonçalo Pais a 7 de Setembro de 2009 às 11:55
Até há quem faça exercícios para que a malta não largue o seu pópó nem para fazer um picnic...

http://www.tuvie.com/renault-picnic-zero-emissions-concept-car-provides-room-for-social-gathering/

De TMC a 7 de Setembro de 2009 às 12:02
Ridículo! Ridículo! Se não visse não acreditava.
De MC a 21 de Setembro de 2009 às 15:29
:D patético
De G a 16 de Setembro de 2009 às 15:30
Se é verdade que antigamente o espaço urbano raramente tinha a mão de arquitetos ou urbanistas (que eram poucochinhos), agora pouco mudou. 90 e tal por cento do espaço urbano criado nos últimos quarenta anos não teve a mão de técnicos especializados, lamento informar.
De MC a 21 de Setembro de 2009 às 15:32
Excelente texto!

Sobre a alteração dos espaço, é engraçada pensarmos que dantes se ia à mercearia na rua (eu ainda vou) e hoje vai-se ao hiper a 10km. As distâncias aumentaram devido ao automóvel. Os bens que necessitamos estavam perto de nós e foi a introdução do automóvel que os afastou.
De leopoldaa a 16 de Outubro de 2009 às 14:24
um carro naa e um objectoo? entao e o quê? frutaa? Pois ...uma casinha de xocolate? um animaal? ou algo extra terrestre.
ass.einstein
De leopoldinaa a 16 de Outubro de 2009 às 14:26
muittoo intelegente suaa labregaa,. um carro feito de xocolate, TOU DED DIETAAAA!

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