Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Como se mata uma região? (I)

Os transportes estão cada vez mais associados a questões de justiça. A distribuição, valência e variedade de uma rede de transportes numa dada região contribui decisivamente para o seu desenvolvimento. E a manutenção dos mesmos em condições de qualidade é um vector de justiça e coesão territorial, devendo por isso ser um critério inegável da política de transportes de qualquer governo.

 

A relação entre aglomerados populacionais e uma rede de transportes é semelhante à que existe, em agronomia, entre um solo mais ou menos irrigado e as condições propícias a que uma dada cultura se desenvolva; se uma dada cultura precisar de água, o acesso à mesma será o factor determinante e decidirá entre a sua robustez ou secura. O mesmo acontece nas populações humanas.

 

Em todo o mundo, a proximidade a canais de transporte determina quais as povoações que podem crescer e aquelas que permanecerão atrasadas e aquelas que soçobrarão. É por isso que, naturalmente, as primeiras povoações humanas concentravam-se maioritariamente no litoral, em vales acastelados ou junto a rios.

 

Conclui-se então que o critério para um desenvolvimento regional justo é uma ramificação equitativa e multimodal da rede de transportes. É precisamente a existência de tais redes que por vezes está até na génese de novas aglomerações populacionais: ligue-se o aglomerado A ao aglomerado B e em breve novos residentes se ligarão no troço construído.

 

As povoações mais distantes das ramificações são portanto prejudicadas e em Portugal é esse o caso de muitas regiões do interior. Foi com tristeza, vergonha e revolta que assisti a uma tertúlia promovida em Bragança sobre as condições de fixação de população jovem no interior. Testemunhos de residentes no distrito chamaram a atenção para a perda da ligação ferroviária a Bragança em 1992, concomitante à construção do IP4.

 

Na altura, o encerramento da ligação ferroviária de Mirandela a Bragança foi justificado com a construção de um troço rodoviário e a falta de rentabilidade do troço ferroviário encerrado.

 

A construção da auto-estrada A4, putativo vector de desenvolvimento da região de Trás-os-Montes, o abandono da linha do Tua e a sua falta de rentabilidade como justificação para o seu encerramento voltam a ser os ingredientes; passados 17 anos, as promessas e as mentiras são muito semelhantes para haver coincidências.

 

O distrito de Bragança, entre 1991 e 2001, data dos censos, registou uma quebra demográfica de 5,7%. Por esses motivos, perdeu a capacidade de eleger mais um deputado nestas eleições legislativas. A sub-região de Trás-os-Montes é ainda a mais pobre da União Europeia a 27.

publicado por TMC às 00:15
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3 comentários:
De MC a 1 de Setembro de 2009 às 16:17
Tiago,
não vás por fontes sensacionalistas. Dizer que Trás-os-Montes é a zona mais pobre da UE é querer gozar na cara dos milhões que passam fome na Europa de Leste.
O PIB per capita em paridades de poder de compra (em preços de mercado a coisa ainda seria mais vergononhosa), a subregião de Alto Trás-os-Montes está ácima da média nacional da Bulgária, Roménia, etc. Se formos à procura das regiões pobres na Europa de Leste, a coisa ainda se torna mais ridícula.
De TMC a 1 de Setembro de 2009 às 16:38
Também estranhei que a 27 seja a mais pobre porque lembrei-me precisamente dos países de leste; apontaria mais para a UE-15 mas não encontrei uma notícia de jeito e guiei-me pelos dados do Mov. Cívico pela Linha do Tua. Mesmo assim não deixa de ser deprimente e um sinal de que algo vai mal. Há solos mais ou menos férteis e povoações mais ou menos dinâmicas mas sem infraestruturas pouco se consegue. O círculo "pouco investimento, menos população, menos deputados, menos investimento" pode tornar-se facilmente uma realidade.
De PJ a 2 de Setembro de 2009 às 01:19
..nem creio que importa saber se é a mais pobre ou menos pobre dos 15, 25, ou 1001.
sei apenas que dói o coração cada vez que atravesso a região. dói, porque magníficas são aquelas terras, e mais magníficas ainda são aquelas gentes, principalmente os velhos que viram os filhos emigrar. por uma questão de justiça, as gentes de trás-os-montes merecem mais do que lisboa ou porto.
e eu sou do porto, sinto injustiça em relação a lisboa, mas perante um bragantino, nada posso senão ouvir e respeitar..

qem o fará neste país?

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