Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Momento de humor "greenwashesco"

A propósito da visita do primeiro ministro às obras dos IC16 e IC30 (mais duas auto-estradas para a região de Lisboa), temos umas declarações no mínimo engraçadas.

 

1. A propósito das críticas à construção de mais auto-estradas numa região que já é campeã em densidade de auto-estradas a nível europeu (e campeã a muitos pontos da segunda), o primeiro-ministro disse que as obras "nada têm de megalómano ou de faraónico".

 

2. DN: Segundo o Governo, a A16 vai permitir "a redução de emissões poluentes..."

 

3. A "Comissão para a Mobilidade Sustentável no Concelho de Sintra" (aquela que muda de nome conforme o vento, e cujos membros são todos do mesmo partido), diz "quanto mais rápido [acabarem a construção das auto-estradas] melhor". Queixa-se contudo das portagens, porque assim vai continuar a ser impossível andar na bisga na auto-estrada paralela, o IC19.

 

Não sei qual a mais parva. Triste ainda é ver os milhões que estão a ser enterrados ali.


A propósito de greenwash: um estudo técnico alemão torce o nariz aos benefícios ambientais dos carros eléctricos. (resumos em alemão e inglês, via)

publicado por MC às 20:06
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10 comentários:
De Nuno X a 7 de Maio de 2009 às 01:27
Bom post Miguel!! Hoje tive uma discussão com colegas, em que por acaso falamos da zona da linha de Sintra e por acaso uma pessoa qie vive em Alfragide numa casa dizia que lá havia uma grande qualidade de vida e que em Portugal temos talvez a melhor qualidade de vida da Europa....
Desarmaram-me foi quando me colocaram a seguinte pergunta - mas se as pessoas querem mesmo viver e decidiram viver nessas zonas e pedem mais auto-estradas quem sou eu para lhes dizer que isso é mau....
Enfim numa democracia se calhar quem está mal somos nós.
A minha explicação para tudo isto passa pelo nível cultural, de educação e cidadania que temos actualmente neste país - é um pouco deprimente reparar que a maioria das pessoas tem uma mentalidade quanto a estas temáticas mais próxima de países atrasados do que de desenvolvidos....
A questão é mudar a mentalidade das pessoas e explicar-lhes o conceito de sustentabilidade.
De CM a 7 de Maio de 2009 às 10:47
É muito isto, de facto. As pessoas vivem formatadas e nem se apercebem. Gostam das estradas, dos condomínio fechados com um jardinzinho e um tanque. Gostam dos centros comerciais e dos restaurantes.
Preferem viver a 2h de trânsito do trabalho e ter mais uma divisão na casa, onde colocam plasmas, dvds, sofás enormes, tudo para se conseguir viver sem sair de casa.

Giro é quando os meus colegas começam a dizer, que os miúdos agora não brincam na rua, só vêem TV e jogam PS's, etc, sem se aperceberem que eles são os culpados, pois fizeram-nos crescer assim.
Não saiem à rua sem ter um motivo forte, não andam a pé a não ser que sejam obrigados e para andarem de bicicleta tem que ser na EXPO e para tal é preciso fazer 10 ou 20km de carro antes...

Este assunto até me chateia, pois é um carneirismo tremendo.

Quando relato pequenas experiências com andar com a minha filha de bicicleta desde casa é durante 6km, parece que estou a falar de um feito incrível, como se não estivesse ao alcance dos comuns mortais..
Por exemplo, em Lisboa há imensos espaços verde espalhados por toda a cidade, mas quem quer ver o tuga passear tem que ir a um centro comercial, a não se que esteja sol, pois aí estende-se tudo na praia, depois de 1h de trânsito, claro.
De MC a 8 de Maio de 2009 às 15:22
CM

E quando compram casa em condomínios fechados para os miúdos "poderem brincar na rua"?! Nem se apercebem do contra-senso
De João Branco a 7 de Maio de 2009 às 17:33
Olá, Nuno.

Há algo falso aqui:

Portugal não é um país com qualidade de vida nem é um país onde as pessoas se sintam felizes. De facto, é um dos países com pior qualidade de vida da Europa e é o país da Europa onde mais crianças são mortas por atropelamento (o dobro dos casos que o segundo classificado).

A "democracia" só é plena se for responsável e informada e se as pessoas tiverem plena consciência das consequência das suas acções. Por isso o "greenwashing" é tão imoral: porque mente às pessoas relativamente às consequências daquilo que fazem.

No caso particular dos teus amigos, talvez eles se sintam felizes com irem de carro para todo o lado e fazerem compras no centro comercial, mas não estarão felizes com a obesidade infantil, com a falta de relações humanas, com as ruas desertificadas e inseguras. Não estarão decerto felizes com uma série de consequências do seu comportamento, o que acontece é que se calhar não sabem dessas consequências.
De João Branco a 7 de Maio de 2009 às 17:39
Sobre a felicidade em Portugal:

Somos o país mais infeliz da Europa dos 27. Os países mais felizes são aqueles como a Dinamarca e a Holanda, em que as pessoas se deslocam mais na rua, a pé e em que há sérias restrições aos centros comerciais, etc.

http://www.le.ac.uk/users/aw57/world/sample.html
http://www.happyplanetindex.org/european-map.htm
http://www.nationmaster.com/graph/lif_hap_net-lifestyle-happiness-net
De MC a 8 de Maio de 2009 às 15:24
João, há muito de cultural e de finanças aí metido.
Um português no espaço público dinamarquês, também seria infeliz.

Continua a fazer brainstorming para arranjar um indicador melhor de qualidade de vida, que eu também penso nisso.
De MC a 8 de Maio de 2009 às 15:20
Concordo contigo, mas acho também que as pessoas não conhecem outras realidades. E quando conhecem não se dão ao trabalho de perceber como é que elas surgirão.

Quanto a nós estarmos mal... De facto tenho alguma dificuldade com isso. Se as pessoas querem viver na merda, só nos resta mostrar outras hipóteses.
Há contudo uma coisa fundamental: uma coisa é quererem viver na merda, outras é obrigarem-me a viver também. Do ponto de vista democrático aqui já estou à vontade! Um exemplo: carros no passeio. Se quiserem viver em alfragide no meio de hipers, é com elas, agora quando ocupam os passeios do meu bairro.. passa a ser comigo.
De MC a 8 de Maio de 2009 às 15:20
O comentário das 15:20 era parao Nuno X
De JT a 9 de Maio de 2009 às 01:52
Caro João Branco,
Creio que a questão dos índices de infelicidade dos portugueses serem mais elevados prende-se mais com o facto de uma grande parte viver com a corda ao pescoço que com o tempo que passam ao volante. Exceptuando aqueles que passam 2 h diárias em filas (um numero demasiado grande mas ainda longe da maioria), creio que a maioria dos portugueses sentem-se muito feliz ao volante. Ainda que tal possa não parecer a alguém de um grupo particular, bem formado, da capital, o facto é que a maioria da população portuguesa (que contam para os índices ) tem como principais objectivos de vida a estabilidade económica indexada pela idade e potencia do carro e a propriedade da casa. Comprar um carro, adequado à família, que "saia barato" face a gastos de manutenção, que seja merecido pelo trabalho duro, etc..são desejos que se tornam objectivos de vida, que lhe dão significado, que fazem as pessoas sentirem-se identificadas com os seus pares, fazem-nas sentir-se responsáveis, com uma razão para seguir o trabalho e em última análise dão-lhes a sensação de serem normais.
Estes objectivos são altamente intuitivos, no sentido que a intuição é fruto da forma de experimentar o mundo que nos rodeia. Como alterar essa forma de percepção? Como tornar intuitiva a preocupação com o ambiente quando durante toda a vida se experimentou que "quanto menos se gastar a fazer mais se ganha a vender" e "mesmo assim custa a dar para pagar as contas"; a noção de sociedade, do todo, quando (especialmente nos meios mais pequenos) o estado teima em falhar e quando funciona , prevalece os amiguismo ("é assim, amigo...não dá para todos.."), a noção de cidadania não se vive ("não me posso queixar se não o tipo lixa-me a vida...".

30% de portugueses dos 25 aos 34 com o ensino secundário completo (pior para >35 anos), face à quase totalidade da população nos países que normalmente damos como exemplo em preocupações com os transportes, creio que fazem muita diferença em termos de estabelecimento de objectivos de vida de um povo.

Já menos "desculpa" têm as classes media-alta formadas, que rodeando-se de pares da mesma classe são super felizes na busca do modelo americano, interiorizado talvez pelas centenas de filmes domingueiros, irrefletida pelo novidade de uma outra classe social: carro familiar para viver num sitio "com condiçoes", preferencialmente perto da autoestrada, levar os filhos a um colégio bom, comprar e ocupar o tempo no centro comercial ao domingo, enfim, a forma mais segura de criar uma família numa cidade "cada vez pior".
Caro Nuno X, também tenho vários amigos que buscam esta vida e a quem os olhos brilham quando descrevem como os seus sonhos começam a fazer-se realidade...

Ante uma maioria que não quer a mudança, não aprendeu a viver de outra forma, e não se considera capaz ou no direito de reflectir sobre ela quanto mais exigir-la, e uma minoria, mais influente, mas que (desastradamente) investe numa forma de vida insutentavel, justificando-a com uma visão realista do mundo, que fazer? No sábado passado brincava com um amigo francês dizendo-lhe que às vezes apetecia-me ser ditador por uns tempos, para resolver este assunto..
Como isto está fora de questão por motivos obvios (não vá outro querer fazer o mesmo por outra razão qualquer :)), creio que enquanto não atingirmos uma maioria de uma população com uma escolaridade mínima decente (aqui uso a fé, e o exemplo "europeu" para dizer que então tudo será intuitivo...) resta influenciar a tal minoria influente, esperar que as coisas comecem a mudar na capital e depois dado o exemplo, deixar o efeito "se eles podem porquê é que nós não?"(muito espanhol) para o exemplo propagar-se ao resto do país...

Como influenciar então esse grupo?
De JT a 9 de Maio de 2009 às 01:54
Como influenciar então esse grupo?

Mostrar exemplos convincentes de outras formas de viver parece ser eficaz (pelo menos comigo e com uns quantos mais pelo que vejo funcionou...)
O ideal seria pagar estadias ao pessoal nessas cidades que tantas vezes são citadas. Era bom, nao? Pois, mas como não sou o Valentim Loureiro, nem o custo de vida por aí é o de Lisboa fica isto adiado... A ideia (antiga) da autarquia de Lisboa, de ir incentivando o carsharing, carpooling e as bicletas, para ir sensibilizando as pessoas para essas alternativas podia ser boa, se não fosse tão tímida (no caso das bicicletas nem isso). Constituir grupos de pressão mais ou menos clássicos para exigir que estas medidas sejam verdadeiramente implementadas e levadas a sério, assim como para arriscar em modelos diferentes em "bairros exemplo" pode dar também os seus frutos. Isso exige muita persistência e participação local.

Ao mesmo tempo, penso que é preciso ir vencendo nos raciocínios sobre o assunto.
Esquadrinhar os raciocínios típicos da cultura do carro e preparar pequenos videos desmontando cada um deles com humor, recorrendo a ideias muito simples (estilo americano "for dummies"). Isto sem cair na infantilidade e deixando o espectador "recém iluminado" sorrindo com uma ligeira sensação de superioridade.
Videos curtos, documentais ou imagens chave dentro do estilo descrito, poderiam ser preparadas e disponibilizadas em grande escala. Além dos meios online da rede ambientalista anti-carro e pró-bicicleta, tempos de antena nos meio de comunicação, podia ser tentado algum trabalho junto de algumas escolas secundárias de "bairros chave", recorrendo a professores sensíveis à questão e associações de estudantes universitárias. Seria importante que fosse mais além da internet.

Parecendo tudo isto uma obviedade, digo-o como contraproposta à colagem de autocolantes proposta pelo passeio livre. Creio que os recursos utilizados nessa campanha a serem canalizados para a obviedade da minha proposta poderiam ser mais efecientes. De acordo com a minha visão descrita acima do conceito de felicidade e objectivos de vida da maioria dos portugueses, penso que os autocolantes, mesmo sensibilizando algumas pessoas, para muitas apenas lhes remove as entranhas e ataca-lhes muito da sua identidade "à queima roupa". O meu ponto é fazer-las sentirem-se superiores, com domínio da situação, e não "animais feridos". Creio que esta "energia negativa" poderá dar uns quantos coices desnecessários antes que a coisa vá lá...
A colagem dos autocolantes tem sem dúvida, a vantagem de provocar uma atitude de parte da administração pública medrosa da perca do controlo da situação. Mesmo sendo favorável aos pró-cidade, não deixa de ser algo que vem de cima...

Conversa, tanta conversa, e amanhã é sábado mas tenho que seguir com a tal escrita que supostamente dá o grau...

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