Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

A indústria automóvel não brinca em serviço II

1. O governo aumentou ontem a contribuição que todos nós oferecemos a quem já esteja farto do seu popó antigo e queira comprar um novo. Agora pode chegar ao 1800€.

Como já escrevi, defender isto sob o manto da protecção ambiental é gozar com a inteligência das pessoas. Notei agora mais duas incoerências: se a ideia é promover a compra de veículos menos poluidores (o que deveria ser feito por penalização dos mais poluidores, não por descontos pagos por todos) porque é que quem compra um carro pela primeira vez não tem direito a este benefício? Se a ideia é reduzir o consumo de combustível, porque é que o mesmo benefício não é dado à compra de carros em segunda mãos menos poluidores, mas apenas aos novos?

Veja-se isto por onde se veja, este programa do governo (que é coordenado pela UE mas decidido a nível local) é pura e simplesmente um  enorme e inexplicável subsídio à indústria e ao comércio automóvel.

Sinceramente estou farto do meu portátil (isso sim, um instrumento de trabalho) e sinto-me discriminado pelo Estado não me ajudar a comprar um novo. Alguém percebe isto?

 

2. Há dias um representante do sector do comércio dizia que o sector estava mal porque não havia incentivos ao consumo! Mas haverá algum sector que não estivesse melhor se houvessem "incentivos ao consumo"?! Isto só prova que estão habituados a ter um tratamento especial.

 

3. Como antecipei na primeira posta, e já referi numa nota, a crise no sector automóvel já vinha de trás. A actual crise económica serviu apenas para atirar areia para os olhos das pessoas, quando se canalizam verbas públicas na Europa e EUA para a indústria automóvel.

 

4. A compra de automóveis segue um padrão de aquilo que em economia se chama  procura elástica. Ao contrário da comida, onde o consumo é mais ou menos estável em bons e maus períodos económicos, as compras de automóveis variam muito com a conjuntura.

Isto é um fenómeno que a humanidade conhece há milénios. Os celeiros existem para armazenar cereais, já que a sua colheita varia muito de ano para ano. O mesmo se pode dizer de muitos sectores económicos que aprenderam a viver com essa flutuação (turismo, artigos de luxo, etc.). Muitos mas não todos, o sector automóvel, que também sabia que a coisa viria abaixo, é neste momento o único a contar com um celeiro chamado dinheiro dos contribuintes. 

 


A ler: Mania das grandezas por José Saramago. Acho as conclusões do artigo a que ele se refere um bocado parvas (porquê 9 e não 5 ou 20?), mas isso não é o essencial.

publicado por MC às 17:16
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6 comentários:
De Luís Ramos a 17 de Abril de 2009 às 18:27
Trabalho numa empresa portuguesa de bens de grande consumo, penso que o Estado também deveria dar uma ajuda. O negócio anda tão mau!
O curioso é que produzimos um produto de 1ª necessidade, Papel Higiénico, cujo o IVA é 20%!!!!
De MC a 17 de Abril de 2009 às 19:17
Pois.. sinceramente não percebo porque é que outros sectores não se revoltam contra esta ajuda tão discricionária.

Há ainda outra coisa que me lembrei a propósito da VOSSA produção. É que grande parte do dinheiro de uma compra automóvel vai para o estrangeiro (repito, parte das verbas é decidida a nível nacional, não a nível UE). No caso do papel higiénico, grande parte é produção nacional. Aliás a própria matéria-prima (celulose) é produzida em Portugal.
De marta a 17 de Abril de 2009 às 20:14
Já agora, qual é o artigo a que ele se refere?
De MC a 19 de Abril de 2009 às 17:36
Era um artigo no Expresso (?) em que se dizia que Portugal tinha 9 auto-estradas a mais. Era uma conta um bocado parva, como pegar no número de AEs por habitante na UE e fazer as contas para Portugal... o raciocínio mecanicista sem qualquer fundamento.

O que interessa é que Portugal tem (QUILÓMETROS de) AEs seja lá qual for o ponto de vista
De Arf a 27 de Abril de 2009 às 21:13
Saiu na revista do Ipea um artigo “mediático” que trata dos possíveis efeitos da crise econômica sobre o transporte urbano no Brasil.

o artigo em PDF. http://desafios2.ipea.gov.br/sites/000/17/edicoes/49/pdfs/rd49art01.pdf


De MC a 1 de Maio de 2009 às 20:00
interessante, mas acho que há a crise económica até pode ser benéfica. há quem deixe de andar de autocarro(onibus), mas muitos mais haverá que deixarão o carro... e entrarão no autocarro

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