Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Rábula do direito divino dos automobilistas

Na Vila de Abajo havia uma rua estreita onde existia uma serração. O negócio foi crescendo, e o pavilhão tornava-se demasiado pequeno. Por vezes era necessário trabalhar as tábuas no exterior porque eram demasiado grandes, outras tinham que ser pousadas cá fora porque o armazém estava cheio.  Os automobilistas que passavam na rua de duas faixas, aceitavam um pouco a contra gosto esta ocupação da rua, mas por simpatia nunca mostraram o seu desagrado. Tratava-se de espaço público, logo a serração também o poderia usar.

O negócio continuou a expandir-se, e as ocupações de uma faixa da rua tornaram-se permanentes. A circulação foi gravemente afectada, tendo sido causados inúmeros acidentes graves devido à circulação em sentido contrário na rua que agora apenas tinha uma faixa. A situação tornava-se insuportável e alguns automobilistas faziam-se ouvir. A serração retorquia perguntando "mas é impossível trabalhar sem ocupar a rua", e os automobilistas calavam-se.

Seguiram-se queixas para as autoridades, que alinhavam pelo diapasão da serração: sem aquele espaço eles não podem trabalhar. A serração, e até a grande maioria dos automobilistas apesar de desagradados, defendia que o incómodo não era assim tão grande, ainda existia uma outra faixa de circulação que estava normalmente livre. Na realidade, a culpa era da Junta, porque ela deveria pagar por um pavilhão novo. Afinal, a serração pagava impostos e até tinha uma licença de funcionamento da Junta!

Dizia-se que na Vila de Arriba, as serrações eram proibidas de tal ocupação, que eram obrigadas a mudarem-se de instalações. A maioria discordava contudo desta solução, onde é que a serração iria arranjar dinheiro para o pavilhão? Como é que poderiam sobreviver com esse custo acrescido? Alguns controlos ocasionais da polícia não eram interpretados com uma punição e um modo de pressionar a serração a mudar-se, eram pura e simplesmente caça à multa! Logo uma cobrança pelo uso do que é público!

Alguns automobilistas radicais começaram a colar um autocolante nas tábuas, a pedir respeito pela circulação. A serração ficou fula, muitos automobilistas discordavam porque o arrancar do autocolante atrasava o trabalho da empresa, e dizia-se que alguma polícia achava que os radicais até mereceriam uns bons tabefes.

Ao fim e ao cabo todos perguntavam aos radicais: mas onde é que queres que eles ponham as tábuas?

 

E agora troque-se serração por automobilista, automobilista por peão, pavilhão por estacionamento pago, etc. e releia-se


Foto tirada por um leitor no Forúm Social Mundial em Belém, Brasil:

publicado por MC às 02:24
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2 comentários:
De João a 17 de Abril de 2009 às 12:41
Lembrei-me de outra rábula boa.

Imagine um campo de tiro.
Há um tipo que decide enfiar-se à frente da carreira de tiro e é atingido mortalmente por um atirador.

De certeza que qualquer tribunal colocará sobre o atirador o ónus da culpa. Terá que provar que tomou todas as precauções ao seu alcance para não atingir o maluco que entrou no campo de tiro, mesmo estando este a meter-se onde não devia, certo?

Este paralelo, só peca por defeito, porque não há campos de tiro no nosso caminho de casa para o trabalho, mas há "campos" onde passam projécteis com o poder de uma rajada de metrelhadora.
De Rogério Leite a 27 de Agosto de 2009 às 19:01
Ih... acho que estamos mais civilizados em algumas coisas... a SERRARIA teria sido intimada a tirar as tábuas, mudar-se ou fechar as portas, e rapidinho! As multas seriam crescentes, chegando logo ao ponto em que seriam tão grandes que as tábuas não seriam mais competitivas!

Afinal estaria fazendo mal ao TRÂNSITO DE CARROS!

Se trocar as palavras, ai inverte-se o ônus da prova! Prove VOCÊ CICLISTA que MEU CARRINHO QUERIDO, MINHA BELA MÁQUINA MOTORIZADA ÚLTIMO TIPO, está atrapalhando alguma coisa!!! Vc é que nem devia ter nascido!

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