Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Dêem uma esmolinha ao peão

A história resume-se rapidamente. A Carla Castelo da SIC, uma jornalista muito empenhada na causa de uma mobilidade mais humana, fez uma reportagem sobre o martírio dos peões em zonas centrais de Lisboa. Um dos casos envolvia um percurso onde os peões são obrigados a atravessar uma via-rápida (oficialmente avenida, daquelas onde se buzina quem anda a menos de 70km/h) onde não havia passadeira nem semáforos. O departamento de tráfego da CML não gostou do que viu, e apesar de não haver alternativas pedonais não esteve com meias medidas e fez pagar o justo pelo pecador: proibiu a passagem de peões. Nova reportagem sobre a insistência dos peões em andar a pé, e pimba! a CML coloca um muro de betão para tentar bloquear os peões.

O ridículo arrasta-se há 3 meses, e esta é a reportagem mais recente:

 

O que mais me confrange não é não haver passadeira, nem a reacção arrogante da câmara*, é toda aquela zona da cidade e a própria reportagem. Quem vê a reportagem, nem percebe que se trata de uma zona muito central de Lisboa. Uma avenida que liga duas importantes praças de Lisboa, tão importantes ao ponto de terem feito parte das 11 estações iniciais de Metro há 50 anos. O local está transformado em cruzamento de auto-estradas - perdão avenidas, cheio de viadutos uns em cima dos outros. Não existem quaisquer zonas de passagens para peões, excepto a que foi agora encerrada. Do outro lado da via-rápida não há sequer passeio ou passadeiras. As alternativas mais próximas para peões são a centenas de metros. Toda a zona parece que foi montada de propósito a impedir a passagem de peões e a matar qualquer ideia de cidade humana.

Posto isto e descontando a primeira reportagem onde este caso era apenas mais um exemplo, todas as reportagens seguintes (as quais eu não deixo de aplaudir) resumem-se a um pedido de migalhas para um sem-abrigo faminto. Obviamente que a Carla Castelo tem a melhor das intenções, tal como vários leitores que me chamaram a atenção desta série de reportagens (obrigado!), mas para mim trata-se de um claro sinal da aceitação social da inferioridade do peão na cidade.

 

* A câmara poderia simplesmente pôr lombas antes do cruzamento. Bem sei que aquela estrada tem perfil de saída de auto-estrada, e as velocidades chegam aos 80, 90. Mas a velocidade máxima permitida ali é 50, o abuso frequente da lei não pode ser usado como argumento para impedir a colocação de lombas que façam ela ser cumprida.


A ver: outra reportagem da Carla Castelo sobre a avenida mais poluída da Europa, a centralíssima "avenida" da Liberdade.

publicado por MC às 23:16
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6 comentários:
De Catarina a 8 de Abril de 2009 às 19:54
Acho impressionante as coisas que se continuam a fazer por este país. Eu estou longe de Portugal fisicamente e diria que mais ainda estou longe em termos de valores comuns, Lisboa ainda tem de crescer muito para alcançar o avanço em mobilidade que muitas cidades lhe leva. Cada vez que leio uma notícia neste blog fico muito triste de não ver as coisas a mudarem no sentido positivo. Esta parece ser a gota de água que deixa o copo transbordar. Quem teve esta estúpida ideia? Quem acatou estas ordens? Quem viu isto e achou que sim?! Ah compreendo a CM quer ver mais gente nos Jogos Olímpicos deve ser, só pode, vamos construi! Os 100 m em barreiras e a nova disciplina: ver quem foge mais depressa de uma tonelada!! Algumas destas pessoas claramente cansadas e imaginá-los ao fim do dia terem de fazer caminho inverso ainda mais custoso e perigoso. Fico triste... gostava de ver boas ideias a acontecer em Lisboa, a deixarem a cidade mais rica e sem medo.

É um desabafo. Será que a próxima notícia pode ser de esperança? Se é que é possível?...

Cumprimentos,
Catarina
De MC a 13 de Abril de 2009 às 23:59
Catarina,
para mim o problema foi criado já há muitos mais anos, quando foi criado um nó rodoviário em plena cidade. Mais tarde (há 10,15 anos?) agravado com a passagem do eixo N-S.
O que está errado ali não é faltar uma passadeira, é haver ruas com perfil de auto-estrada, não haver passeios, etc.

Notícia de esperança em termos de espaço urbano... custa-me a crer. Descontando uma frasezinha do António Costa que disse que no século XXII a 2a circular deveria ser uma avenida, nada mais. Apenas mais túneis e viadutos anunciados para o centro. Muitos pelo mesmo António Costa.
De José Pedro a 13 de Abril de 2009 às 21:12
Sugiro acção directa no local. Vamos criar condições para os peões, mostrando como é fácil diminuir a velocidade dos automóveis e criar condições para os peões. Quem me acompanha?
De MC a 13 de Abril de 2009 às 23:02
José Pedro,
primeiro é preciso explicar a 99,99% dos lisboetas que não faz sentido haver vários viadutos, uns em cima dos outros, sem passeio absolutamente nenhum por baixo no centro da cidade... e ali ao pé, há o corpo especial da PSP a proteger a embaixada dos EUA, cheios de vontade de quebrar a chata rotina diária.

Onde me apetece fazer acção directa, é nas picoas:
http://cidadanialx.blogspot.com/2009/04/nao-existe-passeio-em-frente-ao.html

ir jogar cartas para o meio da rua. Se alguém nos mandar sair da estrada, há uma resposta simples: até sairíamos se houver passeio.

Nesta alinho já amanhã
De António Marques a 17 de Abril de 2009 às 09:58
Não conheço o local enquanto peão e não percebi uma coisa: que estrutura metálica azul com escadas - que algumnas pessoas subiam - é aquela? Uma passagem superior...?
De MC a 20 de Abril de 2009 às 09:45
Também fiquei na dúvida.
Julgo que si, deve ser a que se vê no centro em http://maps.google.com/?ie=UTF8&ll=38.744829,-9.162069&spn=0.001061,0.002414&t=k&z=19

Mas não dá acesso ao percurso que foi cortado (canto superior direito)

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