Há muitos anos que ouvi falar de Michael Hartmann, um conhecido activista pelos direitos dos peões em Munique. Soube na altura em que um tribunal tinha decretado que ele não deveria ser penalizado por caminhar em cima dos automóveis estacionados no passeio, porque não o fazia com o intuito de danificar.
Exactamente, caminhar sobre os carros estacionados no espaço do peão. Um dia em que ia pelo passeio com a namorada, fartou-se de estar constantemente a interromper a conversa e afastar-se dela, por os carros estacionados ilegalmente impedirem a passassem de duas pessoas lado a lado. Fartou-se e foi em frente, tal como era suposto. Por se irritar com a ocupação do espaço dos peões por caixas de metal, decidiu também passar a ser peão no local reservado para as caixas de metal.
Já há uns tempos que descobri na net um documentário famoso sobre ele, o Autoschreck (algo como Susto do Automóvel) de 1995, um "clássico" do activismo pró-peão e anti-automóvel, mas sempre tive receio de o referir. Convenhamos que o senhor tem um pouco de doido, e ninguém gosta de associar doidos à sua causa. Mas à parte da sua figura, será que faz realmente sentido acharmos que alguém que decide caminhar pelo alcatrão é doido? Qual é a diferença entre um peão a ocupar a zona dos carros e um carro a ocupar a zona dos peões? Ainda por cima um carro que está na zona dos peões nem tem uma pessoa lá dentro, é apenas uma caixa de metal. Parece-me que o doido é o outro.
Como o documentário mostra (e nem precisava de mostrar), um peão a ocupar o alcatrão é violentamente maltratado pelos automobilistas, mesmo em frente às câmaras. Mas nunca vi um automobilista a estacionar no passeio e a ser violentamente tratado por um peão.
Aqui fica o documentário de 15min. Veja-se pelo menos dos 0:30 aos 1:30, onde numa cena trágica (um pouco à 24 Horas mas trágica e muito frequente) se mostra bem como a parte mais fraca na mobilidade é apenas uma formiga que pode ser esmagada acidentalmente.
Uma inspiração este Michael Hartmann. Uma vez na Rua Damasceno Monteiro, em Lisboa, seguia com uns amigos e estavam uns carros parados em cima do passeio. Passei-lhes por cima do capot. Coincidentalmente, nesse momento vinha a subir a rua o dono de um dos carros, com dois compinchas. Quando chegou ao carro e percebeu o que se passou, pois havia pegadas, veio a correr na minha direcção, com uma postura violenta. Felizmente a polícia surgiu nesse momento e apaziguou os ânimos. Gabo a coragem do Michael Hartmann para fazer o que fez sozinho.
Já há muito tempo que não vinha aqui dizer nada, embora leia assiduamente este blog com o qual tanto me identifico. Às vezes não digo nada porque, confesso, falta-me motivação. Motivou-me agora este documentário e também a iniciativa dos autocolantes, que hei-de imprimir e espalhar pelo Parque das nações, só para chatear, porque eu tenho a certeza que enquanto estas infracções não se reflectirem pesadamente no bolso das pessoas a maioria não mudará de atitude. Ando muito a pé vou sempre levar e buscar o meu filho à escola a pé, para isso tenho que atravessar as 6 faixas da Alameda dos Oceanos que tem cada vez mais trânsito e onde as pessoas circulam como se fossem numa via rápida, as passadeiras onde atravesso não têm semáforos, não há lombas, e a grande maioria acelera para mais de 80km /h, falamos de uma artéria que atravessa uma zona residencial com duas escolas nas imediações. Hoje por exemplo, tenho que ir buscar o meu filho e vou ter que levar comigo o meu sobrinho e a minha filha que têm ambos 2 anos, para mim é um stress porque só tenho 2 mãos e vou ter que regressar a casa com três crianças, o mais velho que tem 6 anos terá que vir largado, se calhar era mais seguro ir de carro... Vivi durante 7 anos nas laranjeiras, na rua da loja do cidadão, uma das razões que me levou a sair de lá foi o caos automobilístico em que aquilo se transformou, onde os drogados estacionadores eram, e ainda são os senhores da rua, onde constantemente ouvia apitar porque uns trancavam os carros de outros e a policia, como sempre, primava pela inépcia, inércia e ausência. Mudei para a terra prometida, uma nova civilização, que é exactamente a mesma porcaria, podia ser de facto um lugar de excepção mas isso era se fosse habitado e frequentado por gente civilizada (acrescento aos carros a merda de cão nos passeios e relva onde levamos os filhos para brincar e as pequenas lixeiras que se formam nos passeios, normalmente às portas das condutas, feitas por gente que não quer ou não sabe usar as condutas de lixo e reciclagem, porque além de porcas são burras). Enfim revelou-se uma desilusão porque aqui é igual a todo o lado, ora há um concerto no pavilhão atlântico, ora há uma feira muito popular na Fil , ora há bom tempo e a populaça invade a beira do rio com os seus popós, (que só não os levam mesmo para a margem porque não podem, não por ser proibido que isso a eles não lhes interessa nada, mas porque há pilaretes que lá os vão impedindo), ora chove e vai tudo para o Vasco da Gama e como não querem pagar estacionamento , passeios e passadeiras com eles, e maratonas e réveillon e agora para meu azar tribunais, tudo bons motivos e boas desculpas para o estacionamento caótico, enquanto os parque têm uma taxa de ocupação baixíssima aqui na zona. A minha rua que era um caos nos tais dias especiais passou a ser um caos todos os dias e aqui há dias dizia-me um policia que ainda ia ficar pior, com aquele ar de quem anuncia algo inevitável, ao que eu lhe respondi que sobretudo se a policia continuasse a assobiar para o lado e não fizesse o trabalho que lhe compete, pois com certeza havia de piorar. Peço desculpa de ter centrado este comentário muito ao nível do meu umbigo. Na verdade não sou cega, não tenho nenhuma deficiência motora, supero com alguma facilidade os obstáculos, embora me irrite e também me apetecesse passar por cima dos carros a saltar que nem uma hipopótama e amolgar-lhes os capôs , mas não ouso a tanto, mas penso naqueles que têm dificuldades, deficientes em cadeira de rodas, idosos, cegos etc. Já vários estrangeiros me comentaram que em Portugal não se vêem muitos deficientes, lá lhes explico que não é que não os tenhamos, acontece é que aqui é quase impossível terem uma vida independente. Aliás eu comecei a ter a verdadeira noção dos problemas de mobilidade dos peões, nesta cidade quando comecei a empurrar carrinhos de bebé, e quantas vezes tive que ir para a estrada, mesmo assim esta é uma dificuldade mínima comparada com as atrás referidas.
Parque Nações, não quer fazer uma mini-reportagem (anda há uma semana houve uma doutro leitor) sobre a aproximação à estação de Moscavide? Filme ou fotos de telemóvel chegam. Eu só fiz esse percurso 1 ou 2 vezes, mas é impressionante como parece que foi tudo montado para afastar as pessoas da estação.
Laranjeiras, também vivi lá durante 4 anos. Também aí um caso semelhante ao de cima. Os peões parece que são afastados da estação de metro com uma passagem de peões ridículas a dois tempos (numa zona onde a rua só tem 3 faixas!)
Totalmente de acordo, não entendo como numa zona residencial e com escolas existe uma estrada com 6 faixas sem qualquer redutor de velocidade, lombas ou semáforos de controlo de velocidade. As passadeiras existentes já me têm criado situações mais constrangedoras onde o condutor ainda reclama a travagem feita, isto porque ia a uma velocidade excessiva para o sitio. Se é a ideia de um novo planeamento para a cidade então não precisam de se esforçar tanto, venham os carros e as avenidas de aceleramento, como eu chamo a Alameda dos Oceanos.
Quando os meus filhos ainda andavam de cadeirinha, muitas foram as vezes em que o carrinho deles passou por cima do capô dos carros que estavam estacionados em cima do passeio...