Segunda-feira, 16 de Março de 2009

A vaquinha

Quando alguém se farta das suas jeans, quer por estarem velhas ou estragadas, quer por já não gostar delas, deita-las fora (ou dá a alguém) e paga por umas novas na loja. O mesmo diria de uma esferográfica, uma televisão, uma panela de pressão, uma bicicleta, um frigorífico, uns sapatos. Parece-me óbvio que é assim que deve acontecer. Se eu quero um produto novo, devo ser eu a pagar por ele na totalidade. Só conheço 3 excepções a esta regra:

Algumas garrafas (cada vez menos) têm vasilhame. Quando vamos ao supermercado recebemos alguns cêntimos pela garrafa velha, mas na realidade é apenas a devolução do que tínhamos pago.

Muitas lojas dão 5 ou 10€ de retoma por telemóveis velhos, mas na realidade estes são depois vendidos pelas lojas a empresas que reaproveitam os materiais (além de servir de estratégia de marketing).

O último, já devem estar a imaginar, é o popó. E o que me choca é a origem do desconto na compra do novo. Quando alguém quer comprar um carro novo, é o próprio Estado que "pede" a todos nós para fazermos uma vaquinha para ajudá-lo. E estamos a falar de um valor que pode chegar aos 1500€!!

 

Oficialmente a vaquinha é por razões ambientais, mas isso é incongruente. Primeiro, a produção do novo veículo e o desmantelamento do velho são processos com forte impacto ambiental. O ganho em termos de emissões graças a uma renovação mais rápida da frota (é apenas isto que está em causa) é com certeza ridícula face a este custo ambiental. Segundo e esquecendo esta incongruência ambiental, o custo de um impacto ambiental deve ser pago por quem o provoca. Neste caso deveriam ser os automobilistas com carros poluentes a pagar por isso. Terceiro e último, há muitos outros casos onde exactamente a mesma lógica não é aplicada pelo Estado. O caso dos frigoríficos é um excelente exemplo, porque teria um argumento extra face ao automóvel: os frigoríficos antigos libertam gases destruidores da camada de ozono, se não forem devidamente tratados.

 

O lobi do popó, mal habituado que está, não está obviamente contente e exige mais ainda. Em mais um exemplo da sua longa tradição de honestidade intelectual, não se coibe de aldrabar toda a gente na sua argumentação, dizendo que na Alemanha este desconto chega aos 5000€. (Uma mentirinha de 2500€).

 


Greenwashes:

- Patrocinado pela Guardian (possivelmente o melhor jornal britânico) neste video. Trata-se de um carro movido a electricidade, tal como o meu frigorífico. Mas como é um carro, e tem que soar a verde, a reportagem diz que é um carro movido a energia eólica!! A palavra "wind" deve ser repetida 20 na reportagem de 2 minutos, sempre com as turbinas eólicas a aparecer. A partir de hoje, o meu frigorífico funciona oficialmente com a força do vento.

- O lobi do popó português, diz que a corrida deles deste ano é ambiental. Tradução: vai haver caixotes do lixo, recolha do lixo e as fitas de plástico vão ser um plástico mais biodegradável. Não estou a gozar, é mesmo só isto.

publicado por MC às 11:59
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6 comentários:
De José M. Sousa a 16 de Março de 2009 às 20:21
Mais uma acha (http://www.monbiot.com/archives/2009/03/10/scrap-it/) para a fogueira, de Monbiot
De Nuno a 17 de Março de 2009 às 16:11
Já agora:

http://www.treehugger.com/files/2009/03/space-required-cars-bus-bicycles-image-poster-photos.php
De MC a 31 de Março de 2009 às 00:19
Obrigado! Acho que merece post.
No caso inglês, usa-se aparentemente a desculpa da crise. Em Portugal este apoio veio antes da crise.. nem esse argumento se aguenta.
De Josivaldo Mesquita maia a 22 de Março de 2009 às 14:28

Caro Marcos,
Valeu a dica.
Visitei o site da WGLCAR que você indicou e estou satisfeito com os produtos que lá comprei.
Comprei o Hidratante para Banco de Couro e a Cera brilho espelhado com tecnologia alemã deles.
Realmente é tudo aquilo que você falou.
São muito bons os produtos!!
Além de usar, estou até revendendo aqui na minha região. .
Abraços, e muito obrigado pela dica.

De Iletrado a 23 de Março de 2009 às 23:09
Caro MC
Depois de três meses de qualidade de vida no deserto da margem sul (cada vez mais parecido com Lisboa, vá lá saber-se porquê), lá tive de ir a Lisboa. À saída da estação fluvial, no Cais do Sodré, vejo um às do volante a subir o passeio e a meter o popó ENTRE os pilaretes (aquilo está mesmo bem feito, carago!). Tudo normal, até a maneira como as pessoas, piores que carneiros, se desviavam da máquina. Piores porque os carneiros, quando os incomodam, ainda refilam. As pessoas nem piavam. Ainda perguntei ao distinto condutor se considerava aquele procedimento correcto. O senhor perguntou-me se eu era polícia.
A seguir o ciclista decide atravessar aquela passagem entre a estação fluvial e a estação ferroviária. Com a bicicleta pela mão. Queria ir (e fui) “espreitar” a feira do livro na estação dos comboios. Aí, sim, algumas pessoas fizeram sentir o seu desagrado por o ciclista estar a ocupar o lugar do peão. Extraordinário! Um pedestre com a bicicleta pela mão incomoda os outros pedestres. Um carro em cima do passeio não provoca qualquer emoção. O teu artigo para tirar as bicicletas dos passeios (mesmo que seja um peão a transportar uma bicicleta) está a ter mais sucesso que todos os teus artigos para que as pessoas não estacionem os carros no passeio.
Mas isto não ficou por aqui. Uma senhora distinta estacionou o popó em cima do passeio na Rua de S. Paulo, para não atrapalhar a passagem do eléctrico. A acompanhá-la vinha outra senhora distinta, que teve uma certa dificuldade em sair da viatura, pois esta ficou muito perto da parede (não sei se adianta acrescentar que isto foi perto da esquadra da PSP). Só depois de um bom bocado é que percebi a dificuldade da segunda senhora em sair do carro: usava muletas, perdão, canadianas (é mais distinto). Sempre a sorrir, a condutora foi gozando com as dificuldades da companheira em sair do carro. Esta também se ria. Assim à primeira vista não me apercebi que qualquer delas se tenha apercebido da anormalidade da cena. Ou sou eu que estou a ver mal o filme.
Depois disto, caro MC, parece-me que estamos em minoria. A maioria aceita a situação tal como ela se apresenta. E (dizem) nós vivemos em democracia. Aliás, o mais certo é que alguém ainda vai chegar à conclusão que existem demasiados passeios em Lisboa e vai exigir a sua supressão. Quem sabe ainda surge por aí, algures na página 31 da Rede, um portal com o nome “Menos1Passeio”…
Boas pedaladas
P.S. Estou sempre a afirmar que, sempre que vou a Lisboa, não vejo outros ciclistas que utilizam a bicicleta em lugar do carro. Por isso tenho de me retratar e declarar que, desta vez, vi três ciclistas ocasionais. Afinal há razões para ter esperança.
De MC a 31 de Março de 2009 às 01:11
"O teu artigo para tirar as bicicletas dos passeios (mesmo que seja um peão a transportar uma bicicleta)"

eu não disse isso...

quanto á tua história, é triste. ao carro é permitido tudo, mas só a ele

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