Quinta-feira, 5 de Março de 2009

E porque razão menos um carro?

Uma recente reportagem da SIC refere que os níveis de ruído em Lisboa são excedidos nas vias rápidas que rasgam - a palavra é mesmo essa - a capital e também nas artérias principais. Estas, como a Avenida da República ou a Avenida da Liberdade, há muito que foram transformadas em pistas de aceleras. Não tanto por permissão legal, apenas por incúria da edilidade.

 

Outras notícias relatam que os níveis de poluição atmosférica são também excedidos na capital. As partículas que inalamos sem que o possamos evitar têm efeitos crónicos em nós. Ninguém fica doente se passar um dia deambulando em Lisboa. Se o fizer durante vários anos poderá desenvolver problemas respiratórios ou até mesmo uma doença oncológica. É esta dificuldade em traçar a causa e os efeitos dos poluentes atmosféricos que dificulta o estabelecimento de limites legais.

 

O que é inegável é que no centro destes efeitos perniciosos está o tráfego automóvel. Parado ou em movimento, o carro impossibilita e impede uma maior presença humana na cidade. A ausência de uma quantificação exacta dos efeitos negativos do tráfego automóvel não deve elidir o facto de ser ele o agente mais prejudicial para a  qualidade de vida de uma cidade. Estas são as razões científicas.

 

Não existem dados concretos sobre a opinião de turistas - cuja opinião é tida como mais fidedigna do que a dos cidadãos lisboetas - apesar de sabermos que a imagem que levam não é das mais favoráveis. Também não existem estatísticas sobre o sentimento de insegurança ou desconforto que a circulação rodoviária induz. Tampouco sobre o impacto destas na escolha de um bem imobiliário. Apesar de ser um facto que as cotas de habitação estarem directamente relacionadas com a sua sujeição ou não às agressões da poluição atmosférica ou do ruído. A saúde de uma cidade poderá também ser interpretada pelos seus sintomas. Se esta não consegue fixar pessoas, é porque algo de venenoso obstipou as suas ruas. Estas são as razões estéticas e urbanísticas.

 

Habitualmente o impacto negativo do automóvel é medido em termos da sua sinistralidade. Apesar das mortes causarem um sofrimento indescritível nas famílias ou debilitações permanentes, ainda aceitamos com bonomia que o número de mortes tenderá para zero em vez de para uma constante. Isto não é nada mais nada menos do que aceitar a necessidade de um número razoável de mortes por ano para que todos possamos usufruir de um bem não essencial. O erro humano é permitido porque aceitável. Uma morte na estrada é vista como um azar ou como uma irresponsabilidade e raramente é imputável aos responsáveis. Estas são as razões jurídicas.

 

Portugal não é autónomo energeticamente e está longe de o ser. Apesar da propaganda das energias renováveis anunciada pelo Primeiro Ministro ser incipiente e irresponsável, nunca é dito que o país seria mais robusto e mais independente se reduzisse a sua carga energética. Não se trata de razões ambientalistas ou que impliquem o cumprimento do protocolo de Quioto, embora isso seja um motivo desejável. Trata-se sim de que a energia que importamos é obrigatoriamente comprada. E isso impede que mais investimento possa ser direccionado para outras áreas. Além disso, a energia que compramos não é bem utilizada. Nomeadamente, a nível de transportes, as taxas de ocupação baixíssimas e a promoção do transporte individual não nos torna, colectivamente, mais competitivos. Estas são as razões económicas.

 

Pelo que se adiantou e apesar do estatuto que o automóvel individual tem ao nível da publicidade, da indústria e da imagem que cada um associa a si, não parecem haver razões para mudar a sua presença em Portugal.

 

O automóvel não é sinónimo de progresso. Se este for a determinação da razão e não uma locomoção estúpida como parece por vezes ser, o automóvel nas cidades passou a estar do lado errado da barricada. Não tem mais sentido estimular o seu uso. Por tudo o que foi dito, pergunto-me porque nenhum político encara com seriedade as seguintes hipóteses:

 

1) Aumentar e taxar a entrada e o estacionamento na cidade

2) Cumprir os limites legais de ruído e poluição atmosférica

3) Pedonalizar mais faixas de circulação automóvel

4) Estabelecer-se penas mais pesadas para os envolvidos em acidentes rodoviários

5) Estimular o uso de transportes públicos

 

Porque não menos um carro?

publicado por TMC às 21:08
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9 comentários:
De Nuno X a 6 de Março de 2009 às 01:14
Infelizmente acho que estamos perante um problema cultural. Há uma cultura de dependência extrema do automóvel e mesmo um culto do automóvel.
Oiço pessoas a perderem tempo a conversar sobre automóveis em todo o lado - horas a debater que carro anda mais dos 0 aos 100, passeios higiénicos ao fim de semana para ver a vida do outro lado de um vidro, negociatas em torno de carros usados e importados para fuga a impostos....
Enfim se nos dedicássemos a outras coisas mais importantes talvez além de um país mais limpo organizado em termos urbanístico e com menos mortes na estrada, seríamos mais produtivos.
Se o estado desviasse para outros usos metade do que gasta em estradas se calhar teríamos uma melhor rede de ensino ou uma das melhores redes de cuidados de saúde...
Mas o que dizer de uma sociedade que nem se apercebe da delapidação de património natural e humano que representa o suposto "investimento" em estradas e que rejubila quando o mesmo é apresentado....
Infelizmente parece-me que o nosso país está cada vez mais perto da união de países africanos e mais longe da união europeia, em grande parte no que toca à sua cultura dominante.
Como mudar este estado de coisas antes da ruína completa??
De João a 6 de Março de 2009 às 12:22
Mal li as palavras "incúria da edilidade" vi logo que o texto ia dizer TMC no fim ;)

Brincadeiras à parte, Isto dava um excelente manifesto para propagandear o blogue junto à imprensa.
De Carros Usados a 5 de Novembro de 2009 às 19:47
Todas essas medidas são boas sugestões. Eu sou do Algarve e por aqui os transportes publicos não são tão eficientes para utilizar a distancias médias! Eu preciso de carro so para ir ter à paragem de autocarro!
De João a 6 de Novembro de 2009 às 02:06
O que é verdade é que os gestores do desenvolvimento do algarve actuaram com uma vergonhosa incompetência ao apostarem no transporte individual como a única forma de transporte. Em Portimão deixaram construir centros comerciais, retail parks e quejandos à fartazana fora da cidade, e promoveram a construção de zonas residenciais sem serviços longe do centro. Isto, com o forte investimento em autoestradas gratuitas, criou uma absoluta dependência do transporte automóvel. Além disso fez falir todo o comércio tradicional.

Pior, desinvestiu de tal forma na ferrovia, que é quase impossível utilizá-la com sentido prático. Os transportes públicos dentro das cidades só agora começam a surgir.

mas nem tudo é mau. Já conheço cada vez mais gente que se desloca de bicicleta nas cidades planas como lagos e portimão, e pega só no carro ao fim de semana. O sistema vai-e-vem de transportes públicos em portimão tem cada vez mais adesão, e algumas medidas de acalmia de tráfego têm ajudado.

É preciso mudar as mentalidades, para que as pessoas comecem a pensar em alternativas ao automóvel, mesmo onde parece difícil. O comentador "carros usados" diz que precisa de ir de carro até ao autocarro. E se fosse de bicicleta? Ou de mota? Ou de carro, mas dando boleia a mais 3 pessoas ?

Os algarvios têm que exigir soluções mais sustentáveis, até porque quando aumentar o preço da gasolina (e vai aumentar) arriscam-se a ficar isolados.
De MC a 10 de Novembro de 2009 às 22:53
O comboio no Algarve é mais daqueles mistérios estranhos... Porque estará tão longe das populações?!
De jp55m a 6 de Março de 2009 às 13:35
Boas,


Concordo com as hipóteses citadas. No entanto, acho que é fundamental começar por punir severamente (e efectivamente) o estacionamento abusivo em passeios e passadeiras. Não é admissível que o peão - crianças, idosos, carrinhos de bébé,.. - seja constantemente empurrado para o meio da estrada por comodismo de alguns (não, não são só os invisuais e utilizadores de cadeiras de rodas a sofrer, como as agências de 'intoxicação' noticiosa gostam de dar a entender).

Está na altura das autoridades perceberem que a ocupação de um passeio ou passadeira por uma viatura é um atentado directo à segurança/vida dos peões. Assisto diariamente à multa de viaturas estacionadas em locais próprios por não terem efectuado o pagamento quando alguns metros ao lado ficam por multar viaturas estacionadas nos passeios ou passadeiras. Já para não falar nos parques de estacionamento pago, praticamente vazios e com estacionamento abusivo em toda a redondeza.

Caso as autoridades não tenham capacidade de assimilar estes conceitos e prioridades, então que se criem empresas municipais dedicadas exclusivamente à multa destas situações. Não, não é caça à multa, é defesa da vida em sociedade. Para adoçar a ideia, podem reverter parte do valor apurado para causas beneficientes ou construção e manutenção de parques infantis, jardins,..

Sem isto, não adianta aumentar o preço do estacionamento, criar mais estacionamento, alargar passeios, construir ciclovias,..


Em relação ao "[estabelecimento] de penas mais pesadas para os envolvidos em acidentes rodoviários", é um pouco um pau de dois bicos, porque potencia a fuga após o acidente. Além disso, acredito que tenha pouco efeito porque na nossa cultura 'os acidentes só acontecem aos outros'. Devem sim ser aumentadas as penas para os potenciadores de acidentes rodoviários, sejam ou não condutores. E fazê-las cumprir.

A título de exemplo, nas imediações das escolas, as autoridades ao invés de fiscalizarem o transporte de crianças em automóvel sem cadeirinha podiam, com os mesmos meios, fiscalizar nos mesmos locais o desrespeito pelos sinais vermelhos, stops, passadeiras, estacionamento. É que no primeiro caso o condutor apenas (como se fosse pouco) coloca em risco o seu próprio filho, enquanto que nos outros casos coloca em risco os filhos dos outros e que têm o direito de ir para a escola sem ser o automóvel do papá/mamã a deixá-los ao portão.


Pela minha parte, faz 20 anos que me desloco diariamente entre Cascais e Lisboa. Desde há 18 meses a esta parte passou a ser "menos 1 mota" e "mais 1 bicicleta (e comboio)". O carro (sim, tenho) nunca foi opção.
De passeio livre a 6 de Março de 2009 às 14:12
jp55m :

http://passeiolivre.blogspot.com

estamos a tentar fazer algo tipo isto:

http://tempserv.livejournal.com/75065.html
De CM a 9 de Março de 2009 às 16:55
Já por várias vezes pensei neste conceito!

Um autocolante super-potente para colar em todos os carros mal estacionados.
Depois é criar uma brigada silenciosa, que poderá actuar durante a noite (colar autocolantes). :)

Não se trata de falta de espaço apenas, pois se repararem nas vossas ruas, são sempre os mesmos a estacionar assim, sempre!!

Força com esse projecto!
De renegade a 7 de Março de 2009 às 12:59
Excelente texto.
Há uns tempos ia de bicicleta na zona de Belém por entre centenas de pessoas, tudo a pé e não vi uma bicla entre Algés e Alcantara. Em frente à Torre, passo por uma família de franceses que solta o comentário:: -Tiens, un vélo!!
Deve ter-lhes parecido absurdo não haver uma única bicicleta naquela zona.

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