Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária I

Está até hoje em consulta pública a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária, onde é delineada a estratégia de combate à sinistralidade em Portugal até 2015. Aqui fica um resumo do meu contributo (motivado pela disparata insistência em culpar exclusivamente os peões por acidentes onde eles são sempre as vítimas):

 

Portugal continua a ter uma elevada taxa de sinistralidade de peões (segundo a ENSR). Isto é especialmente grave por haver pouco o hábito da deslocação a pé nas cidades portuguesas, o que levaria a prever uma taxa baixa. Descontando uma breve menção ao mero estudo dos regimes sancionatórios aos condutores aplicados noutros países, a estratégia foca-se quase exclusivamente na "Fiscalização" e "Educação" dos peões. Nenhuma palavra é dita, no âmbito da sinistralidade dos peões, sobre a mesma fiscalização e educação dos condutores.

Está implícita a ideia de que o peão é o único responsável por este tipo de sinistralidade. Mas no caso do concelho de Lisboa, por exemplo, sabe-se que praticamente metade dos atropelamentos ocorrem nas passadeiras, ou seja pelo menos em metade a culpa não foi do peão.

 

Além disso, fará sentido tentar disciplinar quem mais directamente sofre com a sinistralidade, que por isso mesmo será mais prudente e menos negligente à partida, desprezando os comportamento incorrectos por parte de quem "tem pouco a perder"? No caso de um erro do condutor, o peão poderá facilmente perder a vida, mas o oposto nunca acontecerá.

Os excelentes resultados das campanhas que têm decorrido nos últimos, em termos de fiscalização e educação dos condutores no que toca a excessos de velocidade, álcool, etc., mostra por um lado que há um elevado grau de negligência destes, e por outro que poderíamos esperar também excelentes resultados de campanhas semelhantes viradas para os condutores neste tema.

 

Um estudo do Departamento de Transportes do Governo Britânico sobre sinistralidade das crianças enquanto peões coloca Portugal no pior lugar dos países europeus analisados. Descontando a Polónia, todos os países têm taxas que são menos de metade (!) da taxa portuguesa. Por se tratarem de crianças, logo com menos noção sobre o comportamento e as regras do trânsito, seria de esperar que os números não fossem tão díspares. Concluí-se neste caso que o problema está no comportamento do condutor e não no do peão.

 


Notícia recomendada: depois de a Comissão Europeia ter aberto um processo contra Portugal por infracção da qualidade do ar nas cidades, o governo vai finalmente apresentar algumas propostas envergonhadas (ao contrário do que o título dá entender, são apenas ideias e não dados adquiridos). O notícia destaca a criação de faixas exclusivas para veículos com mais de um ocupante, algo que a Quercus defende há milhentos anos.

Se isto for aplicado em vias sem autocarros, acho excelente. Caso contrário é vergonhoso que se queira dar o mesmo benefício a um carro com 2 pessoas e a um autocarro com 40.

Pormenor sórdido, apesar de Portugal violar a legislação da qualidade do ar há muitos anos, o Governo vai pedir a suspensão temporária da legislação por já haver "programas em curso".

publicado por MC às 16:11
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7 comentários:
De CM a 16 de Fevereiro de 2009 às 19:11
Este é um assunto que - juntamente com o estacionamento em cima dos passeios - me anda a deixar muito intolerante. Como sei que as leis e as autoridades não vão resolver este assunto "any time soon"....

Numa ocasião, numa passadeira junto ao CC Amoreiras, quando caiu o vermelho para os automóveis e depois o verde para os peões, um SMART teimou passar depois do vermelho. PUM!!! de repente um rapaz tinha dado uma enorme palmada no meio do vidro do condutor. Aposto que aquele condutor/a percebeu o que tinha feito. Adorei! não o faria (pelo menos igual) mas adorei aquela sanção (à falta de outras claro!).

Mais recentemente, ia eu a atravessar uma passadeira e a minha cadela (pela trela) ia dois metros à minha frente, quando uma senhora que nos via decidiu passar e a razar a minha cadela!!!
Instintivamente dei uma palmada na parte de trás do veículo (tal era a proximidade do mesmo) e a Srª apanhou um valente susto e parou mais à frente e perguntou-me
"O sr. bateu no meu carro?"
ao que eu respondi de imediato: "Não, a Srª é que me bateu que eu ia numa passadeira!"
Depois vieram os insultos e eu segui noutro caminho como se nada fosse....

Cerca de um terço das vezes que passo uma passadeira, os automóveis não obdecem à lei. Ora passam à frente, ora fingem que não vêem, ora pedem desculpa e seguem (também muito na moda), etc, etc...
Da minha parte há sempre uma reacção, mas raramente como a que descrevi, por enquanto.
De MC a 17 de Fevereiro de 2009 às 18:18
Eu fiz isso quando quase me atropelaram num verde para peões, em frente ao Corte Ingles em Lx. E o carro estava a virar, logo tinha travado de qualquer modo.
Mal bati no vidro, o carro parou e sairam dois tipos lá de dentro com cara de poucos amigos. Felizmente para mim, o carro é um transporte altamente inflexível, por isso bastou-me caminhar em sentido contrário para me afastar deles.
Mas eles claramente não acharam que tivessem feito algo de mal.


A ÚNICA boa experiência que tive, foi um carro que vinha a descer uma rua estreita em Lx a 80km/h e eu ia atravessar a passadeira. Obviamente que ele achou que eu estava a proceder mal, desatou a buzinar, mas eu continuei a caminhar. Sem nunca travar, contornou-me na passadeira circulando na faixa contrária. Um PSP viu a coisa, e parou-o.
Provavelmente disse-lhe qq coisa tipo "isso é feio, da próximas levas tau-tau"... Daqui 20 anos devo ter outra boa experiência para contar.
De Silvio Tambara a 19 de Fevereiro de 2009 às 02:50
Nós brasileiros sempre (provincianamente) acreditamos que no velho mundo é tudo uma maravilha. Mas pelo visto a coisa ai anda tão mal quanto aqui.

Aqui também a culpa acaba sendo empurrada para a vítima

Nosso código de trânsito tem um artigo muito bonito, o 29 inciso II, parágrafo 2º:

§ 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Se isso fosse respeitado, o paraíso seria na terra.

Grande abraço.
De MC a 22 de Fevereiro de 2009 às 21:02
Sílvio,
o problema é que há o "velho mundo do norte" e há o "velho mundo do sul"... No do sul, toda a gente fala como as coisas são boas no do norte, mas depois ninguém quer fazer as coisas como se fazem no norte.

Esse artigo é bonito, mas eu nem lhe chamaria o "paraíso". Uma amiga holandesa contava-me ontem que na Holanda, quando há um acidente entre um automóvel e uma bicicleta ou peão, é raríssimo a culpa ser atribuida ao automobilista. Parece-me que a realidade holandesa é ainda melhor que a teoria brasileira ;)

abraço luso
De Iletrado a 23 de Fevereiro de 2009 às 16:08
Caro MC
A ENSR é um "verbo de encher", como alguém disse. Um documento de 78 páginas cheio de nada. Conceitos obscenos, como a "Evolução de Mortos por Tipos de Via". Como é, agora os mortos evoluem?! Deve ter sido um documento elaborado por algum adepto do Darwin, que assim lhe quis prestar homenagem...
Na parte que me toca, agradeço esta notícia. Esta página, para mim, é serviço público. Só aqui é que tive conhecimento desta ENSR. Dos órgãos de intoxicação social, népia. Com a vantagem de colocares à disposição "das massas" os documentos que criticas, coisa que aqueles não conseguem fazer, deixando os seus leitores/ouvintes reféns das suas opiniões.

Na resposta que deste ao Sílvio, afirmas que "Uma amiga holandesa contava-me ontem que na Holanda, quando há um acidente entre um automóvel e uma bicicleta ou peão, é raríssimo a culpa ser atribuída ao automobilista." Fiquei sem perceber. Foi um lapso da tua parte, ou é mesmo assim? Afirmas sempre que na Holanda dão mais valor à vida das pessoas que aos carros. Afinal, mesmo por lá os peões e os ciclistas é que são considerados os principais culpados dos acidentes?

Boas pedaladas.
De MC a 28 de Fevereiro de 2009 às 00:51
:)

Bem apanhada!
Tens toda a razão, é exactamente o contrário. O que ela disse é que era quase impossível a culpa não ser atribuida ao automobilista!
De Silvio Tambara a 23 de Fevereiro de 2009 às 17:18
Precisamos urgente de uma nova realidade!!!

Abraço.

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