Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Dois artigos interessantes

Eu costumo enviar os artigos para o fim dos posts, mas acho que estes dois merecem destaque. Aconselho a leitura deles, mas para quem não tem tempo, aqui ficam os destaques.

 

1. Bons investimentos públicos do Rui Rodrigues do maquinistas.org (obrigado Mário)

 

A cidade americana de Houston é uma referência, como um exemplo a não seguir, por ter graves problemas de mobilidade, e está a pagar muito caro por ter baseado a sua circulação apenas no automóvel.
Para se ter uma ideia da gravidade da situação, a União Internacional de Transporte Público (UITP) dá como exemplo a comparação entre as cidades de Singapura e Houston, que possuem aproximadamente a mesma população e rendimento per capita. Por ano, Singapura gasta menos 10 mil milhões de dólares para transportar os seus habitantes que a cidade de Houston, o que representa cerca de menos de 3000 dólares por habitante.
Esta diferença, em parte, também se explica devido à diferença da densidade populacional mas, mais importante, deve-se ao facto de que em Singapura 52,75% dos seus habitantes utilizam o transporte público, enquanto que, em Houston, 95,5 %, utilizam o veículo privado.
Na Europa, o transporte público consome quatro vezes menos energia que o transporte individual e, no Japão, esse valor é 10 vezes inferior. Por outro lado, segundo estudos realizados pela APTA (American Public Transport Association) o transporte público cria duas a três vezes mais postos de trabalho que o privado

(...)

Nas famílias portuguesas, os gastos em combustíveis atingem entre 76 a 125 Euros por mês. (...) Concluiu-se que, num país como o nosso, com poucos recursos económicos, dirigiu-se o maior esforço para o modo de transporte mais caro, mais poluente e que maior número de mortes, feridos e prejuízos provoca na sociedade.

 

2. Revolução na mobilidade urbana em Espanha no El Pais (em castelhano) (obrigado pedro santos)

Refere-se vários exemplos de mudanças que já aconteceram em Espanha, mas insiste que é preciso uma autêntica revolução - e que a necessidade desta é cada vez mais premente e consensual. O mais engraçado queixar-se que a Espanha está sempre na cauda da Europa em termos de mobilidade, que as coisas só são feitas muito depois, que a ditadura do automóvel e dos seus lobbies continuam a predominar... claramente o autor nunca veio a Portugal. Deixaria de dizer que Espanha está na cauda da Europa.

Uma coisa que me parece estar implícita, e que eu já insisti várias vezes: para uma melhor mobilidade urbana não é apenas lutar pelos transportes públicos, é lutar também contra o automóvel (algo que é quase um tabu em Portugal). Isto porque não se pode ter boas alternativas enquanto a ditadura do automóvel perdurar, porque o automóvel tem um enorme impacto negativo sobre as suas alternativas (autocarro, peões, bicicleta).

 


Aconselho a reportagem rádio (em alemão, mas com uma amável tradução e transcrição do  Jorge Tiago e Heidi Koenig nos comentários ao post!) da Deutschland Radio, a gozar literalmente com a obsessão do nosso primeiro-ministro pelas auto-estradas. Mostra o absurdo de haver um país pobre, com vários problemas estruturais, com uma das melhor rede de auto-estradas do mundo, que tem planeado a construcção de mais mil e tal kms nos próximos anos.

(obrigado Patrick)

 

 

publicado por MC às 02:10
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2 comentários:
De renegade a 22 de Janeiro de 2009 às 18:49
percebo o q queres dizer mas há várias europas. A nossa europa é grega, bulgara, romena, siciliana, por aí. a maioria da espanha está noutro campeonato.
De JT a 26 de Janeiro de 2009 às 08:57
Tradução pela amável Heidi Konig

"Estradas em Portugal

O presidente do governo português, José Sócrates, é um amador de autoestradas . Há algum tempo tempo atrás quando foi anunciada o inicio da autoestrada para Bragança, explicou orgulhosamente:" Com este investimento queremos lutar contra a crise económica, vamos criar postos de trabalho, melhorar a qualidade de vida dos portugueses, dar novos impulsos à nossa economia." Mas são cada vez menos os especialistas que crêem nestas promessas. Já existem quase 3000 km de autoestrada em Portugal e nos próximos 4 anos querem construir mais 1400 km, ainda que Portugal seja o pais que tem o maior numero de autoestradas e as menos utilizadas por habitante e por área de toda a UE. " Com as autoestradas aumentariam as dividas pelas quais não se podem responsabilizar" -diz José Viegas, professor da UTL . " Os governos deste pais comportaram-se como alguém que paga com um cartão de crédito sem cobertura, quando as contas chegarem, vão assustar-se. E a cinta que passaremos aos nossos filhos será praticamente impagável. Corremos o risco de que à geração seguinte não lhe reste nenhuma liberdade para decidir onde querem gastar o dinheiro publico, porque nos o desbaratamos todo." O especialista de construção rodoviária critica que Portugal descuide a ampliação/melhora das estradas nacionais, que são mais baratas, e que Portugal, em vez disso, aposta nas autoestradas , que são muito mais caras. Por razões de política interior e porque uma aritmética curiosa das dívidas da UE o fazem possível. " Tudo tinha que dizer-se muito rápido. Com o lema: hoje vamos a estrear-la , amanhã pagamos! A carga para o estado é mais pequena porque em Portugal as autoestradas constroem-se por concessão e depois paga-se portagem. Para uma estrada nacional, ao contrário, teria que ser o estado a pagar. É a mistura de muita pressa com o descuido financeiro que deu origem a esta situação absurda em que um país tão pequeno, que têm muitos problemas tenha tantas autoestradas ". De facto, isto é uma conta mal feita, mas muito sedutora: primeiro a UE para um quarto das autoestradas e a empresa construtora paga o resto. A partir daí o estado paga uma taxa de utilização de 30 anos. Mas esta taxa - segundo as regras europeias - não se contabiliza na divida do estado. Mas este calculo não pode funcionar, teme José Viegas, porque também em Portugal o dinheiro está a diminuir por causa da crise económica. "Além disso, excepto a construção das autoestradas , Portugal faz muito pouco a favor do desenvolvimento do país." Assim opina o antropólogo e sociólogo Ricardo Viera. Autoestradas não só comunicam como separam. Comunicam as grandes cidades, isso sim, mas afastam a província e o interior do país. Assim se priva a muita gente de uma certa qualidade de vida, que poderia existir se não se investira só em autoestradas . Porque o dinheiro que se gasta nisso faz muito falta em escolas, hospitais e outras infraestruturas importantes." Ricardo Viera sabe do que fala, é professor do I. Politécnico de Leiria. " Pois Portugal não é só Lisboa, Porto e a costa densamente povoada. Portugal é também o interior do país. E para que a gente no interior se possa deslocar, são necessárias outras vias. Estradas nacionais e municipais, que comuniquem as localidades mais pequenas, ou conexões com as autoestradas . Mas isso não há!""

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