Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Alergia ao comboio?

Eu sei que me estou a repetir, mas continuo boquiaberto com tanta crítica ao TGV. Não há dia - que digo? não há hora - que não haja político, empresário, sindicalista ou miúdo da escola a aparecer nos media a criticar o TGV. Está tão na moda, que acho que não me deixariam entrar num club nocturno se disser bem do TGV.

Atenção, eu não me considero especialista, não sei se o TGV é uma boa ideia. Agora quando Lisboa é a região da Europa com mais auto-estradas, quando temos das "melhores" redes de auto-estradas que só ainda não chega a Pinhanços no Concelho de Seia, quando temos das piores ferrovias da Europa, quando a maior cidade europeia sem comboio é portuguesa, quando temos dos maiores pesos da rodovia e menores da ferrovia no sistema de transportes etc. só me apetece perguntar,

onde é que estão estes palhaços todos, tão preocupadinhos com as despesas do governo, quando o governo começa a construir a terceira auto-estrada paralela de Lisboa ao Porto?

Ou é alergia ao comboio ou são tapadinhos de tanto conduzirem.

 


A ver: mais uma interessante reportagem da Carla Castelo na SIC, sobre a dificuldade de ser peão em Lisboa. Os mini-passeios, os carros em cima do passeio, o mobiliário urbano, as 1001 voltas que os peões têm que dar para não perturbar os popós, está lá tudo. Só falta absurda discriminação em termos de espera nos semáforos, apesar dos semáforos serem uma consequência dos popós e não dos peões.

Para quem não é de Lisboa a "avenida" que aparece na parte 2, por incrível que pareça, é mesmo numa zona central de Lisboa, não é num subúrbio.

Parte 1

Parte 2

Parte 3 

publicado por MC às 01:08
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11 comentários:
De alves a 14 de Janeiro de 2009 às 02:58
É verdade que a maioria das pessoas agora critica o TGV e não sabem o que estão a criticar, nem sequer apresentam argumentos.

No entanto é preciso ver que é escusado construir o TGV (alta-velocidade) na ligação de Lisboa-Porto, pelas seguintes razoes: foi feito um grande investimento numa linha de velocidade elevada, a linha do Alfa Pendular, que não se encontra de todo optimizada, e que com uma pequena percentagem do investimento que seria necessario, ficaria totalmente operacional. Ora veja, para percorrer 300 km o TGV (alta-velocidade, 300 kph) demoraria 1 hora, no entanto o Alfa-pendular (velocidade-elevada, 220 kph) deoraria 1h20. Acha que por 20 min compensa o investimento?

Outro problema são dificuldades tecnicas de atravessar 300 km duma faixa litoral muito povoada e com um relevo dificil.

Cumprimentos,
Alves
De efcm a 14 de Janeiro de 2009 às 13:50
eu sou contra o tgv entre Lisboa e Porto

pelos motivos expostos no post acima , o alfa pendular chega perfeitamente. e a relação custo beneficio é mais interessante que no tgv.

mas sou plenamente a favor das ligações de comboio.

ps: qual é a maior cidade portuguesa sem comboio?
De António C. a 14 de Janeiro de 2009 às 15:19
A maior cidade da Europa (e não só portuguesa) sem comboio é Viseu. Já foi referida algures neste blog...
De Nuno a 14 de Janeiro de 2009 às 22:53
Concordo com tudo o que é dito no post e tb pelo Alves. A aposta na ferrovia também para transportes permite evitar episódios como aquela escassez provocada no Verão passado com a grve de camionistas. Dois dias sem camiões... e se fosse uma semana?

A parte mais desencorajadora é o modo como o investimento numa ferrovia eficiente e com boa cobertura (não necessariamente TGV) é uma fracção do valor das mesmas ligações rodoviárias.

Por falar em alergias automóveis:
http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7516

"Estudo revela substâncias cancerígenas na atmosfera emitidas pelo tráfego"

Para quando uma Lei do Fumo para os carros que circulam em determinadas zonas da cidade?

Cumprimentos!
De CM a 16 de Janeiro de 2009 às 10:48
Os argumentos dos comentários são bastante certeiros e estou completamente de acordo.
Mas não podemos esquecer que é verdade que se vai continuar a investir milhões em auto-estradas e sobre isso ninguém diz nada.
Somos os mais pobres da Europa e com mais auto-estradas, ainda por cima caras para o rendimento médio nacional.
De certeza que muitas das auto-estradas que ainda se vão fazer também pouparam apenas algumas dezenas de minutos...

Viagem pela IP2 para o Algarve e vejam muita gente a viajar paralelamente à A2. Poupam 15€ e gastam mais uns 30 minutos, perdendo em segurança, é certo!
De MC a 17 de Janeiro de 2009 às 00:25
Acho que alguns comentários acima leram algo que não estava no post.
O post resume-se a mostrar o ridículo de quem critica o tgv, mas sem abrir a boca contra auto-estradas paralelas, e auto-estradas para forrar o país.
De Manuel Tão a 28 de Janeiro de 2009 às 18:38
Muitos parabéns pela forma clara e directa com que se desmistifica esta falaciosa campanha contra a Alta Velocidade em Portugal.

Ainda este fim de semana, no Expresso, vem um artigo de Helder Martins onde pela primeira vez na imprensa de Portugal se faz uma contabilidade do que seria a perda de fundos comunitários fosse o TGV "riscado", como alguns estultos com pretensões a governar preconizam. A menção de Viseu só salienta e bem o afastamento a que este país foi (e continua ser) votado em termos de investimento ferroviário, por contraponto às auto-estradas. É paradigmático constatar que a mesma gente que andou aí no final dos anos 80 a espatifar a rede ferroviária (onde cidades como Viseu, Estremoz, Chaves, Bragança ou Moura deixaram de ter comboio), é a mesma "clique" que agora diz que "não há dinheiro" para o TGV, mas nada fala dos 800 Km de SCUT´s e AE´s que aí vêm, para se juntar a uma rede de auto-estradas que é já a maior do mundo em Km/capita, à excepção do Canadá.

A única coisa que é criticável no TGV (assim como em qualquer tipo de projecto ferroviário convencional) é a extrema lentidão com que se fazem as coisas em Portugal. O ramal da siderurgia nacional, de apenas 3 Km, e que pretendia acabar com aquela absurdidade de Portugal possuir um alto-forno e aciaria sem ligação ferroviária ao exterior demorou 10 longos anos a construir, e quando finalmente ficou pronto, parte dos tráfegos previstos desapareceram, por efeito de redução das exportações. Quando o corredor de ligação logística Sines-Espanha ficar concluído, entre Évora e Caia em 2014 (linha convencional paralela às duas da AV Lisboa-Madrid), terão passado mais de 20 anos de estudos e re-estudos e re-estudos regurgitados: uma vergonha, uma vergonha, uma vergonha!!!

Que se construa rápidamente o corredor Lisboa-Caia, e particularmente o Lisboa-Porto-Vigo, que a actual linha está um caco completo, já não tem capacidade para nada, atafulhada que está de circulações de mercadorias e de comboios locais formados por unidades triplas eléctricas, que tocam às capelinhas todas, apeadeiros e paragens, tal como era no plano rodoviário, a velha Estrada Nacional 1, no fim dos anos 80. Só com uma nova linha Lisboa-Porto se consegue por estas cidades ligadas por um transporte sem emissões, capaz de, em 1h15mn fazer desaparecer a maior parte do tráfego aéreo e reduzir a metade a quota de mercado de mais de 80% do tráfego rodoviário que lhe é conferida pelas duas auto-estradas paralelas existentes. Só com Lisboa-Porto em 1h15mn e Lisboa-Coimbra em 0h45mn se colocam a Régua e a Guarda a menos de três horas de Lisboa, coisa que um "pendular" velho e gasto daqui a menos de dez anos, a circular numa linha sem capacidade é incapaz de fazer.

Que continuem com o vosso excelente blog sobre Mobilidade Sustentável, e com estas intervenções de qualidade, fazendo a diferença num país onde geralmente os ditos "ambientalistas" não apenas antagonizam obras públicas ferroviárias, como apenas se preocupam com árvores e passarinhos, e "promenades" todo-o-terreno de jipe no interior de Portugal.

Manuel Margarido Tão
De MC a 31 de Janeiro de 2009 às 15:51
Obrigado pelo comentário!

Eu não diria "forma clara", diria mais "forma exaltada e insultuosa" mas enfim. Também tenho direito à minha indignação.

Obrigado por recordar o problema da actual linha, que está próxima da sua capacidade máxima de utilização. Isto por si deveria ser suficiente para a construção de uma segunda linha (convencional ou não - mas acho que aqui as opiniões serão unânimes) tal como a LEI prevê que aconteça nas auto-estradas quando se aproximam da sua capacidade máxima.
De Anónimo a 31 de Janeiro de 2009 às 23:24
Caro MC

O problema da "oposição" ao TGV não é senão uma vertente limitada de algo muito mais amplo, que é efectivamente a "Alergia ao Comboio".

Como "post" original do "thread" refere - e muito bem - ninguém chama "faraónica" à ideia de adicionar mais 600 ou 800 Km de auto-estradas a uma rede que já é grande demais.

Ainda hoje, o PM esteve no Alentejo a falar da "grade acessibilidade" que vão conferir ao porto de Sines - pois bem, qual é? Nada mais, nada menos do que a nova auto-estrada A26, de Sines para Beja, cruzando a A2. Onde está o caminho de ferro de ligação do porto de Sines a Espanha, do qual se fala desde 1988? "Há-de estar". Lá para 2014, talvez. 26 anos para por a funcionar menos de 100 Km de linha nova: contingências do país da "mobilidade sustentável".

É digno de nota reparar nos termos que o PM usou em Sines relativamente à nova A26: "Justiça" para com o Alentejo, exactamente a mesma coisa abstracta que está associada à messiânica extensão da auto-estrada A4, de Amarante a Vila Real (envolvendo o Túnel do Marão) e a Bragança. Todos sabemos que ela, a A4, vai ser a "salvação" de Trás-os-Montes e duma região onde o comboio não tem lugar, "porque é muito caro, e não há movimento" (para a auto-estrada, já há tráfego...).

De resto, não estou a ver nesta geração de decisores que venhamos a ter, algum dia, um "caminho de ferro da justiça". Porque para as estradas, sejam elas quais forem, ou custem o que custarem, não há, em Portugal, percepção dos custos, e muito menos dos custos externos. Só há "benefícios" a auferir. Já quando se fala de linhas de caminho ferro, mesmo sem que as mesmas cheguem sequer a materializar-se, não existe em Portugal qualquer percepção dos benefícios, existem única e exclusivamente custos.

Aceita-se como incumbência natural de um Estado, o suporte financeiro de infraestruturas e até serviços rodoviários (incluindo delírios absurdos, como auto-estradas "gratuitas"); mas já não se aceita o caminho ferro nas mesmas condições, nem se realiza sequer que o mesmo possa constituir, como no resto da União Europeia, um instrumento de fomento socio-económico de populações, e actividades económicas da mais diversa natureza.

E aqui temos o discurso oficial da "mobilidade sustentável" e a prática que nos é dada a ver todos os dias: o comboio para Viseu a ser preterido por mais auto-estrada a partir de Coimbra, a juntar às duas que já lá estão, o citado caso de Sines, etc.

Manuel Margarido Tão
De alves a 4 de Fevereiro de 2009 às 13:57
É óbvio que a aposta em auto-estradas é insustentavel, a questão nem se pôe! A questão é a seguinte: que tipo de comboio para cada tipo de cidade?

Eu não acho que seja viável construir um corredor com 100 m de largura entre Lisboa e Porto, para ganhar 20 min, uma vez que ha uma linha ferrea que existe só precisa ser verdadeiramente optimizada. Já alguem reparou na velocidade a que passa o pendular em Santarém? Porque não fazer uma variante á cidade? E as outras cidades, como foi feito em Coimbra?

Há maioritariamente 3 tipos de velocidade de comboio: 120, 220 e 300 kph, cada um adequado a um tipo de distancia: curta, média e longa, respectivamente. Isto por causa do valor (€) do tempo.
E o preço é o seguinte, quado aumentamos a velocidade, reduzindo o tempo, aumentamos a energia, e a energia é cara e escassa. Por exemplo, um comboio a 220 kph gasta mais 3,36 vezes energia que um a 120 kph, e um comboio a 300 kph gasta mais 1,86 vezes que outro a 220 kph.

Uma distancia implica um comboio adequado.

(Sabem qual foi o comboio que subiu a procura na ligação Lisboa-Porto? Pois...foi o inter-cidades!)
De MC a 5 de Fevereiro de 2009 às 13:09
1. 20 minutos? Onde foi buscar esse valor?
O Manuel Tão, para quem não sabe é uma pessoa muito envolvida no assunto, deixa aqui nos comentários uns 1h15 de Lx ao Pt.

2. Já está a ser feita uma variante a Santarém

3. Fazer como Coimbra????
Leia isto http://menos1carro.blogs.sapo.pt/108532.html

4. A actual linha está próximo da capacidade máxima. Isto por si é suficiente para construir uma nova. A discussão não é construir linha ou não, é TGV ou convencional.

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