Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Casta superior

Tenho sido por vezes criticado por me "esquecer" de que dentro de cada carro vai uma pessoa, sempre que digo que algo que está feito para carros em vez de pessoas, ou que algo põe os carros à frente das pessoas.

Claro que eu sei que um carro não têm personalidade - se bem que alguém, que mais tarde veio a morrer de acidente de viação, já os retratou como tendo - o que me revolta é ver que a pessoa, que não tem o volante na mão, é constantemente preterida em favor da outra, seja em termos de planeamento urbano, de código da estrada, de comportamentos das autoridades ou de comportamentos de todos nós em geral. É como se as pessoas dentro do automóvel pertencessem a uma casta superior.

Nestes últimos dias em Lisboa, apercebi-me que NUNCA se buzina contra alguém que está a fazer as manobras de estacionamento numa rua de uma faixa só, bloqueando por isso todo trânsito, ou que NUNCA se buzina contra alguém que está a estacionar em plena faixa de rodagem (seja em primeira ou segunda fila), ou seja contra alguém que vai bloquear por completo uma das faixas atrapalhando o trânsito em toda a zona. Por outro lado, buzina-se contra um peão que se demora a atravessar, contra um peão que atravessa fora da passadeira, contra um ciclista que circular no local indicado mas que segue apenas a 20 ou 30km/h em vez dos 70 ou 80km/h dos automóveis. É que tanto em termos legais, como em termos de incómodo causados a terceiros, não há dúvida nenhuma que as situações acima são bem piores.

Alguma explicação que não seja a da casta superior?

 


A ler este post n'O Avesso do Avesso, bem a propósito, sobre o "status" da bicicleta e do automóvel.

publicado por MC às 19:35
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2 comentários:
De anabela a 30 de Dezembro de 2008 às 23:01
E, já agora, alguém já experimentou chamar a atenção a algum automobilista em falta? Tipo aqueles a estacionar no passeio ou na passadeira, ou a bloquear outro carro estacionado. Pois eu já, e é engraçado o resultado, é que estas criaturas reagem sempre da mesma maneira, seja o chungoso de boné ao contrário, seja a tia de madeixas, seja o tipo bem posto com aquele ar de bem instalado na vida, etc., esta gente simplesmente não admite que lhes digam alguma coisa, normalmente olham com aquele ar tipo " o que tu queres sei eu..." e perguntam se não caibo, se sou dona da rua, se sou policia, etc., isto para partilhar as versões mais suaves, porque a partir daqui é deixar a imaginação voar...
O que eu acho engraçado é que nunca ouvi de um automobilista em falta um " desculpe, de facto estou em falta" ou algo do género. As pessoas nunca consideram que estão erradas, ou que são açambarcadoras de um espaço que não lhes pertence.
Não ando para aí todos os dias a implicar com automobilistas faltosos, senão também não faria outra coisa, no entanto tenho a certeza de que qualquer uma das pessoas com que impliquei até hoje se por exemplo me pisasse ou me desse um encontrão, ou melhor ainda se me impedissem, inadvertidamente, a passagem com o seu próprio corpo, numa porta ou numa passagem, prontamente se desculpariam e de bom grado se afastariam, mas o carrito não o retiram nem com ameaça de policia, aliás, normalmente são os próprios a sugerir que chame a policia se não estiver satisfeita, porque já sabem que nada lhes acontece.
Então o que me intriga é este mistério porque é que as pessoas, em Portugal, de uma maneira geral, ao volante de um carro se sentem no direito de ocupar indevidamente um espaço, que sabem que pela lei e pelas regras do bom convivio social não lhes pertence e ainda reagem arrogantemente quando , prevaricando, são confrontadas com a critica ( e aqui quero deixar claro que por critica entendo algo do género " desculpe, não acha mal estacionar em cima da passadeira ? " ou,"acha bem pôr o carro em cima do passeio a impedir a passagem dos peões?", etc.) muy suavecito, nada de impropérios, embora às vezes me apetecesse calçar as chinelas e acordar a peixeira que há em mim, mas isso deixo para os interpelados. Bom Ano
De MC a 7 de Janeiro de 2009 às 19:10
Anabela,
Por acaso, uns dias antes, houve um grupo em que andámos a chamar a atenção de quem estacionava no passeio.
As reacções foram as que descreveu, chegou a haver uns jovens que replicavam "mas é permitido estacionar em cima do passeio, se não houver sinal contra"!!! E note-se que eles tapavam o passeio inteiro.

Adorei o seu exemplo do encontrão. É um excelente exemplo do que descrevo no post. Quando têm um volante nas mãos, cria-se uma imunidade legal e social inexplicável.

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