Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

A indústria automóvel não brinca em serviço

A coisa andava aí a pairar, e hoje somos brindados com dois favorzecos das nossas autoridades para a indústria automóvel.

 

1. No meio de uma crise internacional - onde todos os sectores estão a passar por dificuldades - a indústria consegue mexer os cordelinhos nas altas esferas do poder, conseguindo milhões de ajuda para se safar da crise. O governo português  (que não está só nesta questão) avança com um apoio de 900 000 000* de euros para a indústria, o equivalente a 5 ou 6 vezes o custo de um novo hospitaldistrital! Outra comparação, baixar o IVA de 21% para 20% custou apenas 600 milhões.

Se há razões económicas especiais para os governos apoiarem o sector bancário em tempos de crise (onde é fundamental que haja crédito e liquidez disponíveis) - e note-se que estes valores não se aproximam nem de perto nem de longe ao dinheiro gasto no apoio à banca - não há absolutamente razão nenhuma para apoiar a indústrta automóvel em detrimentos de outros sectores.  Aliás, apoiar uma indústria que está na base de vários problemas mundiais actuais (crise energética, aquecimento global, guerras), parece-me um absurdo. A única razão que encontro para esta ajuda, é aquilo a em economia se designa tecnicamente por uma "ganda cunha".

P.S. Ainda bem que o Ministro Pinho afirma que a crise no sector automóvel português não é tão grave como no resto da Europa. Nem quero imaginar o que o governo teria feito se fosse da mesma gravidade... (obrigado Tiago)

 

*Com notícias que vieram entretanto a público, ficou-se a perceber que parte deste montante, mais exactamente 200 milhões, fazem parte de uma linha de crédito - logo não são "dados" à indústria. Apenas emprestados em condições especiais. É importante sublinhar a diferença, porque no caso da banca houve muito sensacionalismo na imprensa para empolar os gastos públicos.

 

2. Claro que dinheiro não chega. Os governos da UE voltaram a afrouxar as exigências ambientais à indústria automóvel. O limite dos 130g/km de CO2 que deveria ser cumprido em 2012, foi novamente chutado para 2015. Para enquadrar bem a questão, noto três coisas:

- a mesma indústria convenceu em 1998 as autoridades europeias que não seria necessária qualquer regulação ambiental, tendo-se na altura comprometido a baixar as emissões para 140g/km em 2008. O valor médio em 2005 era contudo de 159g/km! Como diz a BUND, organização ambientalista alemã, o "cumprido não é devido".

- em 2006 esteve para ser aprovada legislação a obrigar a indústria aos 120g/km em 2012, mas os cordelinhos de última hora conseguiram facilitar a coisa para os 130.

- esta semana, a Agência Ambiental Europeia veio dizer que a Europa não vai cumprir os limites estabelecidos na directiva de limites de emissões (estamos a falar de 4 poluentes diferentes!) devido... ao transporte rodoviário!

 


Uma boa notícia em Lisboa para compensar, o programa de bicicletas públicas/partilhadas que tinha sido chumbado pela maioria PSD na AML, foi hoje aprovada em reunião de vereadores - depois de algumas alterações ao seu financiamento.

publicado por MC às 14:32
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24 comentários:
De Nuno a 3 de Dezembro de 2008 às 18:52
O monóxido de carbono deve estar a entrar-me pelas janelas dentro porque estas notícias deixaram-me agoniado!

Excelente post.
De Joao Lopes a 3 de Dezembro de 2008 às 20:31
Há que ver que a crise está a pressionar o corte no uso do transporte individual. E isso é uma boa notícia.
Agora, é preciso é deixar o sector reestruturar-se PROFUNDAMENTE. E temo que com estes incentivos não haja necessidade e vontade. Vai-se estar a enterrar milhões para deixar tudo na mesma, na sua ineficiência, desadequação e apostando no paradigma errado.
Aqui, em Detroit, na Alemanha e na Itália...
De NunoX a 4 de Dezembro de 2008 às 09:59
Como vivemos numa sociedade em que os incentivos são para gastar e não poupar, e em que vivemos sob a ilusão da possibilidade de crescimento constante do PIB, temos políticas destas.
Quando era para impedir regulação do estado a conversa era deixem o mercado ajustar-se, agora quando falamos de uma retração natural após anos de frenesim consumista insustentável atiram-nos com o precisamos da ajuda do estado....
Viva a hipocrisia e o bem estar momentâneo e que se lixe o meio ambiente e as gerações futuras.
Queremos TV, centros comerciais, futebol, carros e consumir bugigangas - isso sim é felicidade.... ou talvez imbecilidade....
De Oscar Carvalho a 5 de Dezembro de 2008 às 10:38
Caro Miguel, compreendo as tuas preocupações , mas tens que perceber que uma fábrica de automóveis é o elo final de uma longa cadeia, que vai desde a transformação das matérias-primas - aço, alumínio, plásticos - sua transformação em componentes - parafusos, lâmpadas, tubos de escape, estofos, etc. - que o dito fabricante se limita a incorporar. Quando se deixa caír um "fabricante de automóveis" atrás vais ter problemas em cadeia gravíssimos, geradores de desemprego em larga escala.
De MC a 5 de Dezembro de 2008 às 10:56
1. Eu tinha antecipado essa crítica (a antecipação está implícita no texto), mas optei por deixar a resposta de fora. Esse mesmo raciocínio aplica-se a variadíssimos sectores, como a construção civil, indústria pesada, indústria electrónica, etc... Nenhuma delas traz as consequências que a indústria automóvel traz, e nenhuma foi apoiada.

2. Essas externalidades industriais já estão incorporadas nos enormes benefícios estatais - em termos de IRC, facilidades de licenciamento, etc... - que a indústria automóvel recebe em Portugal. Se a indústria não é lucrativa mesmo com esses benefícios, estamos perante um custo para a economia.

3. Os valores brutais em causa, mostram que a indústria automóvel vai funcionar literalmente à custa dos impostos. Tendo em conta o ponto 2, consigo pensar em 1001 maneiras mais inteligentes de "deitar dinheiro à rua"
De MC a 5 de Dezembro de 2008 às 11:07
Uma coisa que ainda ninguém explicou, porque é que a indústria automóvel merece este tratamento e outros sectores não?
A única razão - para lá da cunha - é a indústria estar numa situação pior que os outros sectores.
Havendo factores muito concretos para a crise no sector financeiro (não falo da causa primeira da crise, que é culpa exclusiva do sector, falo sim dos factores que fazem com a crise se propague, como a falta de acesso a crédito, a excessiva percepção de risco,etc...) não vejo nenhum que seja particular ao sector automóvel. Sendo assim, só posso concluir que o sector automóvel era um sector com problemas à partida. E gastar dinheiro para manter sectores com problemas, é como enterrar dinheiro para manter abertas muitas das nossas fábricazitas de têxteis completamente ultrapassadas.
De Nuno a 5 de Dezembro de 2008 às 18:47
O tráfico de droga também gera centenas de milhares de empregos e ocupa uma fatia importante do GDP mundial.
Na Colôbia o Estado está a pagar aos agricultores de coca o mesmo por bananas e café (a diferença não é muita) e estes preferem plantar algo que não implica prisão e inceneração.

Não quero dizer que não me importo com o desemprego mas é óbvio que há ideias e indústrias melhores que outras e se a produção de carros dá sinais de ser caduca e estar a diminuir as vendas e produção é sinal que tem de se transformar- as pessoas não vão deixar de se deslocar.

Pela lógica de mercado, se não pela ambiental, é óbvio que uma indústria que não funciona não tem lógica salvar ou atribuir-lhe investimento.
De Oscar Carvalho a 5 de Dezembro de 2008 às 21:33
As transformações não são fáceis de fazer e esta conjuntura não é a apropriada.
Volto a insistir: Digam-me por favor: por cada empregado numa linha de montagem de automóveis quantos empregados trabalham nas empresas fornecedoras?
Fábricas de parafusos, de estofos, de escapes, de volantes, de autorádios, de fechaduras, de tapetes, de rolamentos, de fusíveis, etc. ( não me quero alongar), são centenas e centenas de pequenas indústrias por este país que dependem da indústria automóvel.
De Iletrado a 5 de Dezembro de 2008 às 23:38
Caro ÓScar Carvalho
Antes do automóvel existia a indústria do cavalo - charretes, carroças e outras viaturas alienígenas eram puxadas por esses mamíferos. Muita gente dependia dessa indústria - é uma das razões para o ponto do rio entre o Barreiro e Lisboa se chamar Mar da Palha. O que aconteceu a essa gente quando o cavalo foi sendo sibstituído pelo automóvel? Eram também milhares. Tiveram de se adaptar sem ajudas especiais dos governos. Também podemos falar dos tipógrafos, dos estenógrafos, dos telefonistas, dos dactilógrafos,... de tantas profissões que ainda não há vinte anos eram consideradas de prestígio e empregavam muita gente e hoje ou desapareceram ou estão em vias disso. Nunca vi qualquer governo apoiar os dactilógrafos quando começaram a surgir em massa os primeiros processadores de texto. Eu era dactilógrafo e tive de me adaptar. Não há qualquer razão para o automóvel ter um tratamento diferente. Com a agravante de o automóvel ser o principal responsável pela rápida degradação do nosso bem-estar e nível de vida (há vinte anos eu circulava livremente a pé ou de bicicleta entre Sintra e Cascais. Agora, para andar a pé nesse trajecto, sou segregado e confinado a um espaço restrito, tal qual os judeus em Varsóvia em 1940) Os milhares que produzem peças para equipar carros rapidamente se adaptam e produzem peças para comboios, barcos, bicicletas, skates, patins em linha,... Os fabricantes de carros também se terão de adaptar, ou morrem. É a lei do mercado, que essa mesma indústria tão acerrimamente tem defendido. Por isso sou de opinião que estes argumentos apresentados por este governo não são válidos. É um roubo, puro e simples. O problema, para eles, reside no facto de os nossos políticos, quando acaba o tacho da governação, irem governar-se para a banca, para os seguros ou para qualquer coisa relacionada com a indústria automóvel. E eles estão com medo que esse tacho acabe.
Boas pedaladas.
De Oscar Carvalho a 9 de Dezembro de 2008 às 15:34
Caro Iletrado,
Respeito o ponto de vista, mas não é verdade que os fornecedores se possam adaptar rápidamente.
Os dactilógrafos, telefonistas,condutores de charretes e afins, fabricantes de armaduras para cruzados, etc, etc, foram sendo paulatinamente postos de lado, quando os seus produtos foram substituídos. Uma coisa é uma transição lenta, outra uma rotura. E uma coisa é uma rotura em tempos normais, outra um rotura em tempos de grave crise financeira.
Conheço muito bem, por motivos profissionais, as pequenas industrias deste país. Um fabricante de escapes, ou um fabricante de parafusos, ou um fabricante de autorádios (blaupunkt) não encontra rápidamente escoamento para os seus produtos.
A morte das empresas, mesmo as que não devem existir, não pode ser feita no actual momento, sob risco de ficarmos todos sem emprego.
Não podemos ficar com a consciência tranquila se pura e simplesmente dissermos: "que se lixe, fechem isso!"
De Nuno a 9 de Dezembro de 2008 às 18:01
Percebo a sua empatia, mas não podemos pagar a alguém para cavar e a outro para tapar buracos só para manter dinheiro a circular.

Ajudem-se então os empregados a terem formação noutros empregos necessários e não as empresas de automóveis se a precocupação é com os primeiros.

Um economista sugeriu há tempos: "Porque é que não é a indústria do petróleo a fazer o bailout da indústria automóvel?"
De Oscar Carvalho a 9 de Dezembro de 2008 às 23:01
Caro Nuno,
O problema não é a formação dos empregados, é a inêxistencia de empreendedores à mão de semear para criarem novas empresas para darem emprego aos desempregados.
Numa cride semelhante nos anos 30, a saída foram as obras públicas, receita que hoje as várias economias estão a adoptar, porque manter o dinheiro a circular é importante. Lamento, mas creio que não posso concordar convosco. A chamada ditadura das circunstâncias!
De Nuno a 10 de Dezembro de 2008 às 18:51
Como diz Oscar, pus o carro (sem trocadilho) á frente dos bois - não existem indústrias emergentes em Portugal capazes de absorver a mão-de-obra que resulte de uma reorganização ou queda das indústria automóvel, ou seja ainda nem sequer se põe a formação sem um destino claro.

Porém, para mim trata-se mais de um impasse do que uma circunstância que torne óbvia a assistência á indústria automóvel.
Julgo também que é possível mudar de hábitos sem situações sociais trágicas- é um desafio...
De MC a 30 de Dezembro de 2008 às 01:01
Óscar,
>Numa cride semelhante nos anos 30, a saída foram as obras públicas, receita que hoje as várias economias estão a adoptar, porque manter o dinheiro a circular é importante.

Exactamente. As obras públicas serviram o propósito de manter a economia a funcionar (endividando-se para isso o Estado). Mas aqui duas enormes diferenças.
1. Situação temporária. Essa política contra-cíclica é para ser usada durante um curto período, o problema da indústria automóvel não é conjuntural.
2. As obras públicas são investimento, são despesas cujos frutos serão colhidos mais tarde. Não é de modo nenhum esse o caso na indústria automóvel. Os problemas da indústria tem e já tinha (apesar do apoio que já têm), os problemas que a indústria levanta, a ausência de frutos indirectos futuros, só me pode levar a concluir que estamos perante o que o Nuno disse: pagar a alguém para abrir buracos, e alguém para os tapar.
De Iletrado a 10 de Dezembro de 2008 às 00:32
Caro Óscar Carvalho

As vendas das armaduras de 4 rodas tem diminuído (é o que dizem, alguém reparou nos números? Todos os dias vejo carros novos, com matrículas dos últimos quatro, cinco meses) tem diminuído em todo o mundo e dizem que a culpa é da crise. Como tal a indústria automóvel deve ser apoiada para não desaparecer. E apoiada por todos, incondicionalmente!
A ver se percebo o que queres dizer: consideras que a indústria automóvel está em crise porque as pessoas compram menos carros devido... à crise. Como tal devemos apoiá-la, porque de outra maneira será um descalabro para milhares de pessoas, que ficarão desempregadas. É isto?
Aqui no bairro foi inaugurado um café/restaurante. O serviço era esmerado, a comida boa, os preços justos. Não durou um ano, porque com esta crise as pessoas não têm dinheiro para comer fora (é o que dizem, sempre que pedalo pelo fórum Montijo ou Almada ou pelo Freeport vejo centenas de carros por lá estacionados). Porque razão o governo não deu, também aqui, uma ajuda para o restaurante não fechar? Estamos a falar de... 7 novos desempregados. O problema, a teu ver, reside só no número, ou haverá outro motivo que eu não descortino?
O fabricante de escapes e o fabricante de auto-rádios não encontram rapidamente escoamento para os seus produtos? Claro que não! Têm de se adaptar. Passem a fabricar pára-lamas e colunas para bicicletas. Soa a anedota? Inovem. Não é fácil? Não, mas eu nunca disse que seria fácil. Mas por não ser fácil vão continuar a fabricar escapes, sabendo que não há saída? Como fazem os ferreiros, será que fabricam milhares de arreios e depois lamentam-se porque já ninguém tem cavalos e não os conseguem vender?
Eu conheço a angústia individual de estar desempregado (bem demais, digo-te!), mas não considero bom corrigirmos erros com outros erros, porque o preço a pagar no futuro pode ser muito mais elevado que o que hoje pagaremos.
Sabes o que aconteceu no Mar de Aral? Os soviéticos secaram-no, pois desviaram as águas dos rios que o alimentavam para irrigarem cultivos de arroz e algodão. Ao mesmo tempo os soviéticos pagavam aos pescadores que pescavam cada vez menos, pois o Mar ia secando. Não se pescava, mas pagava-se como se se pescasse... E agora, o que temos? Nem arroz nem algodão nem peixe, pois o Mar secou quase por completo e os dois principais rios que o alimentam não compensam as perdas por evaporação. Todo o mundo brada que isto foi um crime lesa-humanidade. Então e pagar a uma indústria para fabricar produtos que (aparentemente) as pessoas deixaram de comprar é o quê? Aqui o arroz e o algodão é substituído pelo carro, a pesca é a matéria-prima para produzir carros. Que (dizem) ninguém compra! Será preciso que o Mar seque para que se perceba isto? Se fôr assim, estamos tramados, tal como o Mar de Aral: quando se percebeu era tarde de mais.
Boas pedaladas.
De Oscar Carvalho a 10 de Dezembro de 2008 às 01:02
ok tens razão
De Nuno a 6 de Dezembro de 2008 às 00:55
Respondendo á sua questão e recuperando a analogia da droga (não quero de modo algum dizer que a dependência da droga seja equivalente aos males que advenham do uso de automóveis): o tráfico gera empregos e a droga será muito valiosa para quem a usa mas para mim, tal como os carros, o seu valor não tem qualquer significado, na melhor das hipóteses- na pior prejudica negativamente o meu quotidiano e o de outros.

Se produzissem alimentos produziriam algo de que eu preciso e poderiam manter os empregos associados.
Como se está agora a comprar muito menos carros e estes são em parte responsáveis pelo preço dos combustíveis, necessários para coisas mais essenciais, não faz sentido fabricar carros (pelo menos do mesmo modo e nas mesmas quantidades) apenas porque sim.

Se algum executivo da indústria for visionário o suficiente pode perceber que estas pessoas que não estão agora a guiar estão a viajar de outros modos, como transportes públicos, que vão conhecer um grande desenvolvimento (não há escolha).

Por falar de outros modos de transporte, sabia que não existe uma única marca de automóveis nacional, sendo Portugal o segundo maior produtor de bicicletas na Europa (mas sendo dos que menos as utiliza) são 10.000 empregos num sector que duplicou em 5 anos.

Acha que se deve subsidiar estas multinacionais em falência iminente ou apostar na ferrovia e velocípedes nacionais?

Cumprimentos!
De Oscar Carvalho a 10 de Dezembro de 2008 às 22:37
Caro Nuno,
Vocês têm todo o direito à vossa cruzada anti-automóveis, já me arrependi de escrever, porque o diálogo torna-se impossível porque as emoções se sobrepõem à razão. Por isso deixei de responder ao Iletrado e a si, é a última vez. Só para lhe dar um dado: Em Portugal, só nas indústrias fornecedoras da indústria automóvel trabalham 40.000 pessoas. E acho que seria irresponsável mandar toda esta gente para casa à espera que a indústria se reconverta.
Boa luta, mas com argumentos credíveis por favor!
De Nuno a 11 de Dezembro de 2008 às 00:18
Caro Oscar,

Não pretendo de modo algum ofendê-lo e peço desde já desculpa caso o meu discurso tivesse divergido do tema de um modo alienatório.

Não tenho uma cruzada contra o automóvel- tenho contra o seu excessivo e inoportuno, de resto e sendo realista, é uma ferramenta que estã para ficar.

Em nenhum ponto defendi que se mandassem os trabalhadores para casa- o que defendo parece ser aliás o que o Oscár defende- uma redefinição necessária desta indústria (economia dixit) mas que permita a conservação de emprego e o desenvolvimento.

Pareceu-me que neste ponto fundamental estaríamos de acordo.

Cumprimentos, e espero que não deixe de participar
De Iletrado a 11 de Dezembro de 2008 às 22:34
Caro Óscar Carvalho
Não sou anti-carro. Talvez não leias estas páginas com regularidade, mas eu tenho carro, já fiz referência a isso, só que tento utilizá-lo com parcimónia. Como diz o Nuno, é uma ferramenta que veio para ficar, como qualquer ferramenta. O problema, a meu ver, claro, é que o carro é utilizado pela maior parte da população como um fim em si mesmo e não como um meio, como se fosse o remédio para a infelicidade (as páginas intituladas "Uma tarde ao sol, junto ao rio... drive-in" e "Farmácia Drive In" são elucidativas). Usam o carro por tudo e por nada, quando é preciso e quando não é preciso ou aconselhável, entupindo tudo (mesmo tudo!), estradas e passeios. Principalmente passeios, coisa que considero uma falta de cidadania brutal. Carros com a bandeira de Portugal lá espetada e em cima do passeio é não perceber bem o que é isso de ser cidadão.
Mas aqui o problema não é esse. E então vamos discutir a razão e a emoção. O problema é não aceitar as regras do mercado brandindo o argumento do número de empregados que são afectados. Regras de mercado que, recordo para os mais distraídos, eram ferozmente defendidas por estes mesmos empresários, que lutavam contra a ingerência do Estado nos seus negócios. O Estado serviria só para regular o mercado. Então agora, que o mercado funciona, as pessoas não compram carro, ou pelos menos com a mesma regularidade de antigamente, (independentemente dos motivos, económicos ou outros) há uma quebra nas vendas, e agora os senhores empresários já pedem a intervenção do Estado? (isto também é válido para os bancos, claro, mas não estamos aqui a discutir isso)
Volto à carga com o restaurante da minha rua: foram sete pessoas para o desemprego. E os vidreiros da Marinha Grande, porque não tiveram o mesmo apoio? E os têxteis do Vale do Ave? É só por um problema de número? Não são pessoas como os empregados do negócio dos carros?
Até podiam ser 600 mil a dependerem da indústria automóvel. Que se apoie as pessoas que ficam desempregadas, não as empresas. Tanto mais que no ramo automóvel, como em muitos outros sectores, quem se lixa sempre são os empregados, haja ou não apoio do Estado. Qualquer problema no sector (há anos que é assim, mesmo no tempo das vacas gordas) e é ver a legítima angústia das pessoas com medo de perder o seu emprego, enquanto os empresários, muitas vezes a causa de tais problemas, pedem apoios. Recebem os apoios, mas isso afinal não impede que metade do pessoal vá para a rua, ou que a fábrica feche. E depois são empregados noutra fábrica, com o mesmo patrão, a fazer o mesmo, mas por menos dinheiro, claro... Queres que eu te diga os nomes das fábricas de componentes electrónicos para automóveis que seguem esta prática? É que eu também tenho familiares que vivem dessa indústria, que volta não volta se vêem no desemprego porque a fábrica fecha. É ver a quantidade de mandantes que continua a manter o seu nível de vida de luxo, enquanto os empregados sofrem na pele esta política de apoio ao capital. Por isso, neste caso e noutros semelhantes, quem deve ser apoiado são as pessoas, nunca as empresas.
Boas pedaladas.
De MC a 30 de Dezembro de 2008 às 00:48
Caro Óscar,
>por cada empregado numa linha de montagem de automóveis quantos empregados trabalham nas empresas fornecedoras?

parece-me que essa questão é irrelevante, depende apenas de como a indústria automóvel (e quando digo indústria estou a referir-me a tudo o que está a montante) está estruturada. Se todos os produtos do sector agrícola passasse a certa altura por uma pequena empresa de 10 funcionários, também poderia dizer que por detrás de cada um desses 10, haveria milhares de outros... mas no essencial indústria agrícola seria exactamente a mesma.
De JT a 8 de Dezembro de 2008 às 10:14
Descobri este blog há um mês e desde então não parei de visitá-lo . Ainda não tive tempo de comentários mais sérios mas não posso deixar de dar os parabéns ao blog! É bom ver que há gente que é capaz de sair da lógica carro-centro comercial a que se resume a vida dos portugueses e especialmente da maioria das pessoas da área metropolitana de Lisboa. Parabéns e continue assim!
De pggcosta a 10 de Dezembro de 2008 às 15:44
Realmente! Quando os interesses falam mais altos, o dinheiro aparece sempre!!! Este mundo está perdido!
De MC a 30 de Dezembro de 2008 às 01:43
Um comentário (final?) a esta discussão:

1. Ainda não ouvi uma única razão para este apoio ser exclusivamente dirigido para a indústria automóvel. Estive a verificar algumas notícias, e de facto confirma-se o que eu suspeitava. Os problemas não vêm da crise, a indústria automóvel americana e europeia já acumulavam prejuízos há tempos (a crise serve assim de capa, que facilitou a negociata).

2. O apoio em causa - no caso português - é um apoio de longo prazo. Não se trata apenas de aguentar os empregos como o Óscar defende.

3. Sou sensível ao problema de haver milhares de empregos especializados em risco, mas a solução deveria passar por apoiar a transição dos trabalhadores para indústrias tecnológicas que mereçam (o cluster das renováveis por exemplo, julgo ter tecnologia semelhante) em vez de enterrar dinheiro numa indústria que já tinha problemas à partida. Podemos estar a criar um sério e grave problema de subsídio-dependência.

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