Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Por que razão os peões deve(ria)m desrespeitar as regras IX

Este post tinha ficado esquecido na série dos "Por que razão os peões deve(ria)m desrespeitar as regras". O que me fez lembrar dele foi este excelente texto publicado no Público sobre um livro sobre o largo do Rato, que vai ser apresentado no colóquio "O Peão e a Cidade em Lisboa". Não resisto a transcrever parte do texto:

 

Para Böle-Richard, o objecto da sua pesquisa [Largo do Rato] pode ser encarado "como um símbolo da situação rodoviária geral de Lisboa e, portanto, de um processo de alienação e delapidação da cidadania pedonal e do espaço dito 'público', em benefício de uma sociedade motorizada desigual e cada vez mais constrangedora".
Itinerários impostos
(...) O resultado, diz, é "a agonia lenta e dolorosa de um espaço que devia ficar um lugar público, isto é, de encontros, de diálogo e de vivência".
Böle-Richard fala mesmo numa "inversão dos papéis entre espaço privado e espaço dito público", já que o Largo do Rato passou de espaço de "convivência" a espaço de "atravessamento", fazendo com que os estabelecimentos comerciais nas suas margens se tenham tornado "o único espaço de convivência possível, concentrando as sociabilidades mais 'tradicionais' de rua".

(...) "relações de força" que se estabelecem entre os condutores e peões, tendo notado que os últimos "geram estratégias temporárias espontâneas de resistência relativamente ao poder impositivo do trânsito e da própria organização infra-estrutural do referido largo". Isto acontece, por exemplo, quando o peão abandona o passeio e caminha pela estrada ou, como coloca Böle-Richard, quando este, "para retomar posse do espaço cívico que jamais devia ter deixado de ser seu, a rua, se atreve a abandonar as estruturas autoritárias que lhe estão destinadas".
(...) Outro problema apontado por Böle-Richard é o dos "semáforos pedonais com tempos de verde curtíssimos", que "incentivam" o peão a atravessar com o vermelho.
(...) constatou que nesta praça de Lisboa o peão "tem medo de atravessar a estrada, que também pensa duas vezes antes de sair de casa, que reduz propositadamente as suas deslocações no local e, pior ainda, porque abandona progressivamente o espaço cívico para se refugiar dentro de zonas comerciais, nos jardins dos arredores ou até em condomínios".
Nesse sentido, uma das conclusões do trabalho do antropólogo é que "entre a situação real do Largo do Rato e o discurso oficial existe um abismo". Böle-Richard acredita que isto acontece porque o último se baseia numa análise "apenas em termos de fluxos motorizados", que não tem em conta "a realidade vivida pelos seus utentes".

 

Bom, mas aqui vai mais um exemplo de que como as cidades são desenhadas a pensar em quem provoca conflitos de espaço e prejudica os outros, em vez ser feita de modo a beneficiar quem dá vida a este largo. Para ir simplesmente de A a B no Largo do Rato, os peões têm estas duas belas alternativas (uma com 4 e outra com 5 esperas descoordenadas!).

Escusado será dizer que o mesmo largo tem outros exemplos semelhantes, que apesar de tanta espera que os automóveis impingem ao peão não há um único semáforo vermelho que faça os carros esperarem pelos peões, e que eu nunca devo ter respeitado este percurso ridículo sempre que por ali passo. Junta-te a mim!

publicado por MC às 00:37
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