Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Por que razão os peões deve(ria)m desrespeitar as regras I

Tenho andado a acumular vários exemplos do modo discriminatório com que as regras de trânsito e o desenho urbano tratam os peões em comparação com os automóveis. A situação deveria ser exactamente a inversa por duas fortes razões.

 

1. Os peões (e quem anda de transportes públicos ou bicicleta) dão vida à cidade, tornam-na humana e segura, usam o comércio tradicional. Os automóveis fazem-na sombria e desumana, enchem-na de ruído e poluição, usam e abusam do espaço urbano público, causam sinistralidade, empurram a vida para as periferias, para os shoppings no meio do nada. Imagine-se só por momentos uma cidade onde todos andam a pé e de transportes, e outra onde todos andam de automóvel. Alguém tem dúvidas?

2. Os semáforos e outras regras de trânsito só existem porque há quem queira andar de automóvel, e esse trânsito precisa de ser regulado. Se toda a mobilidade fosse feita a pé de autocarro, haveria 20 vezes menos veículos a circular, o que dispensaria essa parafernália toda. Faz algum sentido as desvantagens das escolhas de uns, recaírem sobre os que não tomaram essas escolhas?

 

Enfim, o mundo não é perfeito. Ao menos pedia que as regras tratassem os peões e os automobilistas de igual para igual, mas isso está muito longe de acontecer... veja-se os próximos capítulos.

 

Quanto ao título... A ideia que quero passar é que exigir aos peões que respeitem as regras é o mesmo que exigir aos servos do senhor feudal que lhe continuem a dar metade da colheita em troca sabe-se lá do quê. Só uso o condicional, porque há uma possível consequência chata para os peões que não as respeitam, consequência esta que não existe nem de perto nem de longe para os automobilistas: passar o resto da vida numa cadeira-de-rodas ou ir ter com o jc mais cedo.

 


Tertúlia amanhã em Lisboa na esplanada da Fábrica de Braço de Prata, sobre "Opções de transporte em Lisboa" às 20h30 (logo a seguir à bicicletada), organizada pela Plataforma de Discussão e Intervenção Ambiental.

No dia 2 de Julho às 19h na sala Visconti da Fábrica Braço de Prata, será projectado o documentário "The End of Suburbia" seguido de debate.

publicado por MC às 14:38
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4 comentários:
De Gonçalo Pais a 27 de Junho de 2008 às 10:44
Viva. Concordo plenamente. Sou peão e ciclista no quotidiano e sinto que toda a cidade anda um ritmo exageradamente (inumanamente) rápido. Defendo a cidade para as pessoas e a implementação de espaços de circulação partilhada, obrigatoriedade de circulação à velocidade do mais lento, espaços públicos car-free, preponderância transportes públicos colectivos, enfim uma cidade humanizada.
Percebo a questão de desobediência civil como protesto, apesar de apostar mais em regras de convivência sãs.
Tenho alguns exemplos demonstrativos da falha desta convivência sã que lhe podem ajudar a complementar os capítulos vindouros (ou não!).

A passadeira que liga as estações ferróviaria/metro à fluvial do Cais do Sodré (provisõria hà anos). A passadeira é uma figura que dá a prioridade ao peão no código da estrada (lá está, criado para os automóveis) e esta não é excepção. Devido ao número elevado de peões, os automóveis estão muito tempo (relativo) à espera para passar e é frequente alguns atritos acontecerem. Acelerações bruscas, avanço inconsciente, enfim a técnica prepotente do "causar medo para prevalecer a minha vontade".

Outra exemplo é o passeio marítimo de Oeiras. Um passeio marginal com bastante largura, afastado das faixas de circulação automóvel (tipo bichos enjaulados e afastados do resto da população, pois são maus). Nele partilhavam espaço, peões, skaters, patinadores, ciclistas, cães, etc. Noutro dia vi um sinal em que proíbiam a circulação de bicicletas durante certos meses e um certo período do dia (não sei precisar). A aparente causa é a falta de entendimento o que levou a alguns acidentes :os. O peão e o ciclista não conseguem negociar a prioridade? Deveriam haver regras específicas? Cidadania activa para que se pudesse chegar à razão alguns desrespeitos na circulação??
Outra coisa, se isto fosse aplicado ao restante universo, teríamos a proíbição de circulação de automóveis por causa do número elevado de atropelos e com consequências bem piores que os do passeio marítimo de Oeiras.

Abraço e continuação de postagens excelentes que nos alimenta o desassossego.
Gnpais
De MC a 27 de Junho de 2008 às 14:50
Viva,
(parabéns pelo Ma Fyn Bach, que já sigo há algum tempo.)

Eu não lhe chamaria desobediência civil... Acho que todos os peões têm noção que as regras estão contra eles, e por isso só esperam num sinal vermelho quando sabem que há perigo de atravessar. Quando fiz a experiência que conto no post II, as pessoas a passar estranhavam eu estar à beira do passeio à espera, enquanto toda a gente passava. A regra de não respeitar a regra está tão instituída que não chega a ser desobediência.

Quanto às passadeiras (e isto há de ser um post), já repaste que a regra é o carro sempre primeiro,e a excepção abre-se em favor do peão? É raríssimo haver casos onde a regra favoreça o peão e se abra excepções para os carros?

No caso de Oeiras... eu até percebo que se proiba as bicicletas ali, porque é um caminho estreito. O que não percebo é o porquê de ser tão estreito! Ainda por cima a bicicleta nem pode legalmente circular na estrada ali.

http://www.fpcub.pt/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=138&Itemid=2

abraço
De Gonçalo Pais a 30 de Junho de 2008 às 09:31
Obrigado pelo link. Realmente quando se vive num sítio onde compara a circulação de bicicletas como uma espécie de vandalismo e o estacionamento desregrado como a norma, estamos muito mal.

Abraço e continuação de boas experiências.
De quimkaos a 14 de Janeiro de 2010 às 17:11
então vejam isto e fiquem boquiabertos à vontade...
engraçado que muitas vezes assisti a agressões deste tipo...

http://www.facebook.com/pages/Theres-a-perfectly-good-path-right-next-to-the-road-you-stupid-cyclist/190080667052

e depois quem tiver FB inscrevam-se

http://www.facebook.com/group.php?gid=235515394023&ref=mf

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