Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

E se amanhã os carros não poluíssem...

E se Amanhã os Carros não Poluíssem
ou
Porque é que Este Blogue NÃO é um Blogue Ambientalista
(pelo menos no sentido estrito da palavra)

 

Imaginemos o que aconteceria se amanhã, se por um toque de magia, os automóveis não emitissem partículas, NOx , SOx , CO , CO2 , etc... Claro que isto acontecerá no dia em que eles crescerem como frutos nas árvores, mas imaginemos.

Ainda teríamos todos os dias e só em Portugal, 3 mortos e 10 feridos graves, e outras tantas famílias destruídas .
Ainda teríamos um barulho ensurdecedor nas cidades, e em todas vilas e aldeias próximas de uma estrada. Barulho que não nos deixa dormir até tarde, descansar, apreciar a cidade, beber um café numa esplanada, fazer um passeio agradável. Barulho que provoca ansiedade em stress em todos, causa milhares de ataques de coração, doenças cardiovasculares e dificuldade de concentração na aprendizagem e no trabalho.
Ainda teríamos um sentimento de insegurança nas nossas cidades, porque as cidades deixaram de ser humanas com pessoas a andar nas ruas. Só o trânsito sem rosto passa.
Ainda teríamos uma cultura de sedentarismo e comodismo, do "vamos tomar café, mas vamos de carro", que tantos problemas de saúde traz à população dos países ricos, como hipertensão, diabetes, colesterol, enfartes, doenças vasculares, etc...
Ainda teríamos milhares de animais estupidamente mortos nas nossas estradas.
Ainda teríamos o espaço urbano, que deveria ser de todos, absurdamente apropriado pelo monopólio do automóvel. Em vez de passeios para serem desfrutados e utilizados ainda teríamos metade da rua ocupada com carros estacionados e outra metade com carros a circular. Em vez de pequenos jardins e esplanadas, ainda teríamos parques de estacionamento. As crianças continuariam a não poder brincar na rua. Os deficientes motores continuariam a não poder movimentar-se no seu próprio bairro de um modo independente.  Ainda teríamos viadutos a poucos metros das nossas janelas. Ainda teríamos o nosso bairro desfeito e cortado ao meio por uma via-rápida . Ainda teríamos que "ir dar uma ganda volta" só para ir já ali ao fundo, porque a estrutura das cidades é pensada para facilitar a circulação dos carros, e não a dos peões. E mesmo que o percurso fosse simples teríamos que constantemente parar, esperar, espreitar, avançar, esperar porque o sagrado fluxo do tráfego nos impõe semáforos, passagens de peões, passagens aéreas, etc... que apenas existem para que o carro possa existir.
Ainda continuaríamos a viver num clima de terror permanente, num medo constante de sermos atropelados, quando vamos trabalhar, às compras ou visitar alguém. Os idosos continuariam a não se sentir à vontade para atravessar as grandes avenidas e as ruas com muito trânsito, o que só ajuda à sua exclusão social. Ainda teríamos medo de fazer uma coisa tão simples e inocente como deslocarmo-nos de bicicleta.
Ainda teríamos congestionamentos intermináveis, onde tantos de nós perdem várias horas por dia a fazer deslocações, que com um bom sistema de transportes seriam feitas em meia-hora , tempo este que poderíamos aproveitar para o que nos desse na gana.
Ainda queimaríamos milhões e milhões todos os anos em alcatrão e mais alcatrão, combustível e mais combustível, DGVs, Brigadas de Trânsito, seguros, inspecções, revisões, mudanças de óleo, etc... que poderiam ser imensamente reduzidos se a maioria das deslocações fossem feitas de transportes públicos, o que nos permitiria usar estes fundos em algo proveitoso para o nosso desenvolvimento e bem-estar.
Ainda teríamos as cidades e os campos horrivelmente desfigurados e descaracterizados graças aos viadutos, vias-rápidas dentro da cidade, sinais e mais sinais, túneis. Bairros, largos, vielas e pracetas ainda seriam feios, desagradáveis e desumanos.

Se amanhã os carros não poluíssem, quem lê este blogue, nem o notaria.
publicado por MC às 14:46
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13 comentários:
De anabananasplit a 18 de Abril de 2008 às 18:24
So true, so true... Excelente tema para um post. ;-)
De Tárique a 18 de Abril de 2008 às 19:02
Muito bem! Já um dia destes, disse, um bocado a exagerar "tou-me a cagar para o ambiente, não quero é ser atropelado!"
De Anabela a 18 de Abril de 2008 às 22:00
É mesmo assim, infelizmente.
De Anónimo a 19 de Abril de 2008 às 02:00
Muito bem descrita essa nossa realidade. É pena que mais cidadãos não pensem assim, cada vez que instintivamente ao sairem de casa pegam nas chaves do carro. Quero cidades pensadas para pessoas e não para automóveis!!!
De luddista a 5 de Maio de 2008 às 05:31
Perfeito! Já estou há algum tempo ensaiando um texto parecido, mas até hoje não consegui.

Poluição é um problema "do passado", que só não foi resolvido pois muito interessa queimar todo o petróleo e os "bio" combustíveis antes.

O carro, mesmo que não poluisse nada (mesmo durante o seu processo de fabricação), seria um transtorno urbano que gera isolamento, mortes, destruição do espaço público e tudo mais que você citou.
De MC a 7 de Maio de 2008 às 23:07
Mas faz na mesma!
Este post também andava aqui preso na garganta há muito tempo.

Mas escreve tu, que cada um tem sempre maneiras diferentes de ver e 4 olhos vem mais que dois.
De Pedro Soares a 27 de Junho de 2008 às 10:27
Concordaría em absoluto consigo se tivesse começado o post por: havendo alternativas...

É que eu sou de Águeda, e em Águeda, por exemplo, não existem nem de perto nem de longe as alternativas que existem em Lisboa (estou a supor que quem escreveu o post é de Lisboa).

Gostava de acrescentar que na minha opinião, ter carro em Portugal é uma questão de afirmação pessoal, e enquanto isso não mudar...
De MC a 27 de Junho de 2008 às 11:15
Viva,

repare o post não é sobre a existência de alternativas. Apenas queria desmontar a ideia de que o automóvel só tem impactos negativos por razões ambientais... É que para mim, esses até são secundários.

Sim, sou de Lisboa. E sim fora de Lisboa e Porto há poucos transportes públicos para deslocações curtas/médias. Mas por exemplo em Águeda (onde não se pode usar a desculpa do relevo) poderia usar-se muito mais a bicicleta do que se usa. Não sei se há muita gente a andar a pé, mas se for como o resto do país... somos os europeus que menos andamos a pé.
As alternativas criam-se e fazem-se criar.

Mas concordamos no essencial.. enquanto a posse do popó valer socialmente o que vale, a coisa está preta. E o que não falta em Lisboa e no Porto (onde há as tais "alternativas") é gente a fazer enormes sacrifícios só para o ter.

Cumps
De Paulo Cunha a 20 de Julho de 2008 às 15:30
Isto do carro é uma armadilha das multinacionais e dos governos seus reféns que nos aprisionam às escassas possibilidades de fazer a nossa vida sem este objecto estúpido que só o é porque invadiu as nossas vidas e nos cria uma dependência doentia e cara. Que bom seria poder dar uma volta de carro numa rede de estradas de qualidade e sem filas numa região em que as estradas apenas representariam o suficiente que complementasse uma excelente rede de transportes públicos de qualidade e estes sim responderiam massivamente às nossas necessidades diárias!
De MC a 20 de Julho de 2008 às 16:23
Eu diria que os governos são mais "reféns" das opiniões públicas do que outra coisa... (mas isso é das "desvantagens" da democracia).
O que vejo na opinião pública é uma total incompreensão no que toca à necessidade de limitar a mobilidade de automóvel... diria até alguma "estupefacção" sempre que se fala nisso. Quantos não alinharam pelo diapasão habitual do ISP e IA serem um roubo?
De Roberto a 23 de Novembro de 2008 às 15:56
Pessoal, aqui todo mundo é hipócrita. Todos falam em "deveriam fazer isso!" ou "somos vítimas do sistema!", mas na realidade niguém faz coisa nenhuma... SE cada pessoa fizesse o que cada um está destinado a fazer, sem pensar e sem achar se aquilo ele teria alguma vantagem para si próprio, o mundo seria muito melhor... A verdade é que, o ser humano ainda está muito longe de ser um ser ao menos "descente"...
De Jorge a 8 de Setembro de 2009 às 17:06
Tenho uma scooter eléctrica, tá provado que gasta muito menos e polui menos mesmo que 100 % da energia venha de uma central termoeléctrica, não faz barulho e até agora não atropelei ninguém, não entendo que a ausência de barulho possa trazer barulho, o perigo é por vezes não sabermos o código da estrada e os peões não respeitarem as regras tal como os condutores.

De Jorge a 8 de Setembro de 2009 às 17:07
Onde se lê:

não entendo que a ausência de barulho possa trazer barulho


lê-se:

não entendo que a ausência de barulho possa trazer perigo

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